quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Sabrina - Pai Adotivo - [Completo]



Pai Adotivo
Donna Clayton


Título: Pai adotivo
Autor: Donna Clayton
Título original: Adopted Dad
Dados da Edição: Editora Nova Cultural 2000
Publicação original: 1999
Gênero: Romance contemporâneo
Digitalização: Nina
Revisão: Bruna
Estado da Obra: Corrigida

Éramos estranhos quando nos conhecemos...
Christopher Kimball foi buscar sua filha e somente então soube que a adoção não mais lhe seria concedida. A menos que ele se casasse imediatamente, a pequenina órfã não teria uma família. Antes que pudesse perder a esperança, uma linda estranha lhe propôs uma solução surpreendente: casamento! Seria a solução ideal, não fossem os olhos de Mary Hellen tão doces e tão ternos. Afinal, Christopher queria apenas uma filha, não uma esposa!


CAPÍTULO I

— Como assim "as regras muda­ram"?! — Christopher Kimball tentava conter a irritação ao questionar o funcionário do Departamento da Serviços à Infância. Afinal, estava em país estrangeiro e devia ser flexível.
A escrivaninha entre os dois parecia uma parede de concreto. E não era a única barreira a separá-los.
O homem não entendia uma única palavra em inglês, Christopher sabia disso. Mas sua frustração estava, com muita rapidez, se transformando em a raiva. Nada ocor­ria do modo correto por ali?
Uma nuvem negra e ameaçadora pareceu descer sobre ele, em resposta.
O rapaz atrás da mesa, a pessoa que tinha nas mãos o poder de conceder ou não o maior desejo de Christopher, apenas deu de ombros.
O idioma gutural eslavo que ele falava fez Christopher automaticamente virar-se para o terceiro indivíduo da sala, o jovem tradutor que ele contratara, chamado Viktor.
Christopher sabia que sua impaciência tornava-se evidente.
  O que ele está dizendo, Viktor?
  Pede-lhe desculpa — afirmou o moço. — Diz que não tem como ajudá-lo. Seus supervisores decidiram que você não poderá tirar Ekhatherina do orfanato. Não permitirão que a adotem. Não deixarão que leve a criança do país.
A cada negativa, Christopher sentia-se como se esti­vesse perdendo o chão. A decepção avassaladora bastava para deixá-lo em agonia.
Como aquilo podia estar acontecendo? Todas as questões deviam ter sido solucionadas antes de sua saída dos Estados Unidos. Mas, não, estava ali, do outro lado do planeta, descobrindo que seus problemas apenas começavam.
—        Eu não entendo! — Mais uma vez, Christopher dirigiu-se ao funcionário do governo.
Entretanto, foi Viktor quem explicou melhor:
O senhor não tem esposa, sr. Kimball.
Mas todos já sabiam disso semanas atrás! A agência dos Estados Unidos me garantiu...
Christopher perdia o controle, algo que detestava, mas a situação estressante era insuportável.
Alterou o tom de voz e usou as mãos para se expressar:
—        O fato de eu ser solteiro não devia ser impedimento! Disseram-me que o número crescente de crianças que ficaram sem lar por causa da guerra fez com que houvesse uma flexibilidade na lei.
Houve mais conversa entre Viktor e o funcionário, e, naquele instante, os olhos de Christopher migraram para a fotografia em preto-e-branco que tinha na mão. Sabia bastante coisa a respeito da menininha que viera adotar em Kyreznóvia.
A garotinha da foto tinha catorze meses de vida. Os olhos castanho-escuros, com uma expressão de um bichinho atemorizado, conforme apelidara-os, mostravam uma vul­nerabilidade que o afetava em um grau impressionante.
Os cabelos castanhos de Ekhatherina haviam sido cor­tados na altura da nuca. Tinha informações de que era saudável, ou melhor, estava saudável quando Christo­pher fez a solicitação para adoção, quase um mês atrás. O fato de não saber se Ekhatherina estava bem agora torturava-o. Passou o dedo pelo retrato.
Queria tanto ser pai... Não, gostaria de ser o papai de Ekhatherina. Desesperadamente!
A pobre criança perdera os pais quando o casal cami­nhava, por engano, em uma pequena trilha que ladeava a cidade e que fora infestada de minas terrestres.
Aquelas duas pessoas nem ao menos imaginaram que arriscavam a vida, e aquela travessia pelo campo deixaria órfã sua única filha.
A bela menina, que se apossara do coração de Chris­topher desde o instante em que ele pousou o olhar em sua fotografia, vinha sendo abrigada em um orfanato.
Ekhatherina... Sua linda, solitária e carente garotinha.
Mas naqueles dias em Kyreznóvia, a história de Ekha­therina não era excepcional ou inusitada. Muitos peque­nos foram deixados famintos e sem lar pela guerra civil que ocorria no pequeno país, a tal ponto que o governo fez um apelo. Pessoas do mundo todo foram conclamadas pelos meios de comunicação a abrigar esses garotos, proporcionando-lhes um lar, família... e amor.
Kyreznóvia era uma terra linda, rica em cultura e com pessoas maravilhosas. E Christopher não era um estranho no país. Visitara o local anos atrás, quando Kyreznóvia fazia parte da Rússia e seus pais levaram-no ao exterior.
Ficaram naquela região por tempo bastante para fa­zerem amigos. Claro, como era na ocasião um alegre ga­roto de doze anos de idade, Christopher permitira-se per­der contato com os meninos que conheceu. Mas jamais se esquecera do local tão pitoresco.
Em sua casa, na Pensilvânia, Christopher estivera as­sistindo ao noticiário internacional das sete horas quando soube do problema das vítimas da guerra na Kyreznóvia.
Algo dentro dele fora avivado, e Christopher vira-se discando ;para o número presente na tela da televisão antes mesmo de dar-se conta do que fazia.
Isso ocorrera semanas atrás.
Entrara em contato com uma agência de adoção nos Estados Unidos, e primeiro procurara informações sobre Ekhatherina. E recebera o retrato e uma pasta com os dados da menina.
Até mesmo lhe disseram que seu estado civil de solteiro não seria problema. Aquelas crianças precisavam de bons lares. Não importava que alguns fossem regidos por mãe ou pai solteiro. A agência na América do Norte garantira que isso não seria empecilho para que Christopher adotasse Ekhatherina.
Entretanto, naquele instante descobria que a garantia que lhe fora dada não valia mais.
Mas isso foi até... — O som da voz de Viktor fez Christopher desviar o olhar da fotografia. — ...ontem.
Ontem? — Christopher repetiu, irado. — E você, por favor, poderia me dizer o que ocorreu no curto espaço de tempo de vinte e quatro horas para mudar essas regras miseráveis?!
Viktor sorriu.
—        Perdoe-me, sr. Kimball. Isso foi... como eu diria... uma figura de linguagem. Não quis dizer literalmente "ontem".
Como Christopher não retribuiu o sorriso, Viktor des­viou o olhar e pigarreou.
—        Veja bem — Viktor continuou, com mais seriedade —, nosso país acabou de proclamar independência. Nosso governo está apenas nascendo. E emocionante. Mas há muitos percalços. Nossos líderes não têm experiência. As leis mudam de semana para semana.
Dessa vez, Viktor não se furtou a quase gargalhar.
—        Algumas vezes de dia para dia, sr. Kimball.
Christopher via suas chances de levar a pequena Ekhatherina consigo para casa ficando mais remotas a cada segundo.
  Nós tentaremos — Viktor prometeu. — Deve com­preender que todos os envolvidos estão procurando fazer o melhor.
  E o que é o melhor? Este homem... — Indicou o fun­cionário do governo. — É capaz de afirmar que acredita que seja melhor para mim ir embora sem Ekhatherina?
Após um momento de silêncio, Viktor falou com suavidade:
  Ele não está tentando fazer o que é melhor para o senhor. Nosso governo procura encontrar a melhor saída para nossas crianças.
  Aqueles bebês estão famintos! — Christopher vocife­rou. — Com frio, assustados, sozinhos na face da terra! E metidos em quartos pequeninos e lotados como... como pe­quenos animais. Há vinte crianças sendo cuidadas por um só adulto naqueles orfanatos. Eu li as reportagens. Sei que...
O rapaz atrás da escrivaninha falou. E a resposta de Viktor foi tão ríspida que fez Christopher indagar:
  O que foi? O que ele disse?
  Nada. Está apenas tentando suavizar o clima. Fez, como dizem os americanos, uma piada.
O súbito nervosismo no olhar do jovem tradutor deixou os cabelos da região da nuca de Christopher arrepiados. Algo estava errado. Alguma coisa não estava se encaixando ah.
—        Não pareceu uma piada.
Viktor limitou-se a fitar o teto.
Eu estou lhe pagando para traduzir, Viktor — Chris­topher lembrou-o. — Então, traduza.
Ele falou... — Viktor gaguejava. — ...que por cem dólares lhe encontraria uma jovem esposa de nossa na­cionalidade. Falou que precisaria apenas de dois dias. E sugere que você volte para os Estados Unidos com a fa­mília completa.
Ao som da palavra "esposa", Christopher ficou tenso. Nunca tivera um relacionamento permanente.
—        Ele não falou por mal, sr. Kimball. Se não estiver interessado, o moço compreenderá. Entretanto, caso seus superiores descubram a oferta que fez, perderá o empre­go. Sua discrição será muito apreciada.
Christopher demorou um instante para controlar-se antes de encarar Viktor,
—        Conforme você disse — Christopher respondeu com frieza —, ele estava apenas fazendo uma piada.
Acenou com rispidez para o homem que o atendera e virou-se para partir.
—        Sr. Kimball, por favor, lembre-se de que as regras podem mudar de novo. No mês que vem, na próxima se­mana... Até mesmo amanhã. Por favor, não se desencoraje.
Falta de coragem era pouco para descrever como Chris­topher se sentia. Viera de muito longe, tanto em milhas físicas quanto em comprometimento emocional, dispondo-se a deixar o país levando aquela menina consigo. Mas sentia-se desolado em constatar seu pouco poder em relação ao assunto mais importante da existência de Ekhatherina e da dele também.
Nem se importou em responder ao incentivo de Viktor. Continuou andando pelo corredor, o coração tão pesado que mal lhe permitia respirar.

CAPÍTULO II

Mary Hellen Ritter estava em dificulda­des, mas não se preocupava em demasia com a situação. Os eventos foram inesperados, sem dú­vida. Mas já estivera em posição semelhante antes.
Bem... talvez não exatamente assim, sem emprego, di­nheiro ou perspectivas para o futuro próximo. Entretanto, algo aconteceria. Uma solução para seus problemas se apresentaria em breve. Sempre fora assim, e agora não haveria de ser diferente.
Aquele hotel parecia moderno comparado à dúzia de outros que visitara naquela manhã. Entrou e deu uma olhada pelo salão do restaurante. Diversos clientes es­tavam sentados a mesas muito bem alinhadas.
Um homem de cabelos escuros chamou de imediato sua atenção. Estava sentado, contemplando a xícara de café como se tivesse o peso do mundo todo nos ombros.
A toalha sobre o tampo, branca e impecável, fora, sem dúvida, tratada com muita goma e ferro quente. O piso não mostrava mancha alguma, assim como as camisas brancas dos garçons e garçonetes.
Mary Hellen não se importaria em trabalhar em um lugar daqueles. Pelo menos até conseguir dinheiro sufi­ciente para viajar ao país de seu novo compromisso como professora de inglês.
Mary Hellen fez sinal a um garçom e perguntou-lhe onde poderia encontrar o gerente. Sem deter sua disparada para a cozinha, o rapaz apontou para a sala dos fundos.
O olhar de Mary Hellen seguiu a direção indicada. Avistou uma porta do que só podia ser o escritório da gerência. Aproximou-se com passos determinados.
Enxugou as palmas úmidas no tecido da saia, repas­sando seus argumentos mais persuasivos.
Tinha de arrumar colocação, e com urgência, porque, se não conseguisse recursos muito em breve, não teria como se manter.
Meneou a cabeça como para afugentar a preocupação. Era necessário se concentrar no que diria. Precisava con­seguir um emprego. E naquele dia!
O café na pesada xícara de cerâmica que Christopher tinha entre as mãos estava amargo e tão forte que quase o fez deixar de lado as preocupações que o levaram a passar o tempo ali, no restaurante do hotel.
Os últimos quatro dias, desde aquele em que esteve na sala do Departamento de Serviços à Infância e recebeu a notícia de que pessoas solteiras não podiam adotar crianças, estavam sendo os mais longos de sua vida.
As horas pareciam se arrastar. E em todo esse tempo a pequena Ekhatherina não saía de sua mente.
Estaria com fome? Ferida? Amedrontada? E sendo ob­servada de perto naquele orfanato lotado?
Ou estava sendo provocada? Atormentada? Sofrendo abusos?
Cada momento sem saber notícias dela era uma ago­nia. Seria assim a preocupação dos pais com seus filhos? Eram esses os temores de um pai?
Algo semelhante a um tapinha em seu ombro fez com que levantasse o queixo, embora ninguém estivesse perto o bastante para tocá-lo. Deparou com uma mulher que passava rumo aos fundos.
Seus lindos cabelos ruivos eram longos e ondulados. Viu apenas um lado do rosto, mas era possível observar o restante... um metro e oitenta de curvas femininas. Logo pôde notar os quadris balançando de um lado para outro ao ritmo das passadas.
Christopher engoliu em seco e voltou a olhar para a xícara vazia. Então, deu apenas outro breve olhar à moça, bem a tempo de vê-la erguendo a mão para bater à porta do escritório.
A mulher travou uma conversa clara, sem a menor hesitação, com um homem mais velho, que Christopher sabia ser o gerente do restaurante.
Embora ela falasse o idioma da Kyreznóvia e usasse roupas semelhantes às das outras mulheres que vira nas ruas e lojas, havia algo diferente na jovem.
Alguma coisa não parecia correta na cena que Chris­topher observava. Só não conseguia descobrir o que era.
Quando o tom de voz dela tornou-se mais urgente e então ganhou um tom de súplica, Christopher concentrou-se de vez no que ocorria no fundo do salão. Ouviu-a dizendo "pajálusta" diversas vezes.
Christopher pouco sabia daquele idioma eslavo, mas durante as visitas diárias ao prédio do Departamento de Serviços à Infância, acompanhado por Viktor, descobriu como pronunciar "por favor" com perfeição. E fizera isso. Diversas vezes.
A garota, pelo visto, enfrentava alguma espécie de com­plicação. Ou tentava explicar a questão ao gerente ou im­plorava por auxílio. Christopher não sabia bem o que era.
Ficou imaginando que infortúnio ela...
Arregalou os olhos, viu em que se metia e conteve o pensamento.
O que estava fazendo? Não devia estar desperdiçando energia ponderando acerca do dilema de outra pessoa. Sobretudo em se tratando de uma mulher!
Fizera um voto solene a si mesmo anos atrás: passaria ao largo de mulheres persuasivas.
Foi então que o gerente, com firmeza, fechou a porta do escritório bem diante da moça. A derrota e frustração na postura dos ombros dela fez Christopher levantar-se antes mesmo de dar-se conta disso.
"Você não vai conversar com ela!", uma voz interna ordenou-lhe. "Já tem problemas suficientes. Passe ao lado e vá embora. A porta do banheiro fica poucos metros adiante. Vá para lá. Agora!"
Era um bom conselho. Era mesmo. E Christopher tinha intenção de seguir o comando silencioso da parte lógica de sua consciência. Mas quando aproximou-se da moça, ela suspirou e sussurrou:
—        Oh, meu Deus!
Christopher parou de modo tão abrupto que teve de erguer um pouco os braços para manter o equilíbrio.
—        Você fala inglês!
Ao som de sua voz ela se virou, colocou algumas mechas de cabelos para trás da orelha e o encarou. Ofereceu-lhe o esboço de um sorriso, o que o hipnotizou.
Aquela mulher não era só linda, mas deslumbrante. E bem nova. Seus olhos tinham o verde profundo da mais rara das esmeraldas, as sobrancelhas formando asas perfeitas para protegê-los. Decerto um artista angélico muito talentoso esculpira com delicadeza o pequenino nariz e as maçãs salientes do rosto.
Então, viu pelos lábios... Eram os mais sensuais que com que já parara desde que nascera.
—        Você é... — ele disse em um sussurro rouco. "Estonteante", estivera prestes a verbalizar. Por sorte, conseguiu conter-se.
Devia estar louco! Tanta preocupação para com Ekhatherina o abalara, só podia ser isso.
"Você não pode lançar elogios a estranhas, Christopher, meu velho. Em um país estrangeiro, pode ser perigoso. O que está pensando?!"
—        ...uma americana? — ela terminou a sentença, achando que fora isso o que Christopher estivera prestes a indagar.
O sorriso de Mary Hellen ampliou-se um pouco, como para deixá-lo saber que já fora abordada muitas vezes por pessoas que, assim como ele, surpreendiam-se em ver uma americana vestindo, falando e morando como qualquer outro nativo de Kyreznóvia.
Mas Christopher não era como os prováveis desconhe­cidos que ficaram desconcertados diante de sua naciona­lidade, ele considerou. De jeito nenhum.
Em vez disso, quase fez papel de bobo, e estaria men­tindo se dissesse que não estava aliviado por ela ter ter­minado a oração de modo tão casual.
  Sim, eu sou.
  Ah! — foi a única resposta que Christopher conse­guiu balbuciar.
Diversas questões lhe ocorriam., como por exemplo: o que ela fazia no caos de um país recém-nascido? Não sabia do perigo para visitantes estrangeiros? E de onde herdara aqueles maravilhosos olhos verdes? Ou melhor, "de quem" era o termo correto.
Algo dentro dele despertava. Algo profundo, primitivo.
Christopher passou a língua pelos lábios secos e tentou sorrir, mas por algum motivo indecifrável seus músculos faciais não quiseram funcionar.
—        Você... bem... eu... — O fato de parecer estar com a língua amarrada confundia-o. Respirou fundo e fez ou­tra tentativa: — Não pude deixar de ouvir sua conversa. Não falo o idioma local, mas percebi que talvez esteja com alguma dificuldade.
A inflexão dada ao comentário dava-lhe um tom in­quisidor. Queria que a moça confiasse nele. E era a última coisa que devia desejar naquele instante.
Entretanto, Christopher estava intrigado demais pela garota de cabelos avermelhados para dar ouvidos à lógica.
Mary Hellen não pôde conter o sorriso. Aquele homem, um estranho, expressava preocupação com ela. Sentiu-se tocada.
O que, porém, despertou-lhe o riso, foi a constatação de que era aquele o homem que vira estudando a xícara de café com tamanha atenção assim que ela entrou no restaurante.
Recordou ter pensado que tratava-se de uma pessoa com uma preocupação muito grande. Entretanto, lá es­tava ele querendo saber de seu problema. A idéia aquecia-lhe a alma, para dizer o mínimo, e lhe revelava algo a respeito do rapaz. E era muito importante.
Mas Mary Hellen nem sonharia em acrescentar mais peso ao fardo daquele homem.
—        Obrigada por sua gentileza, mas não há nada com que se preocupar. — Esperava que seu tom apreciativo fizesse-o entender como se sentia acerca de sua preocupação.
Estendeu a mão, tocou-o com delicadeza no braço e, sem entender por que, viu-se sem fala, como se um choque elétrico a tivesse atingido.
Tivera a intenção de lhe garantir que ficaria bem. Quis expressar que não havia nada que não pudesse solucionar sozinha. Entretanto, sentiu a firmeza da musculatura debaixo da manga do terno e um calor tão perturbador...
Sua pele queimava a partir do pescoço e faces. Precisou de toda sua força para romper o contato.
—        Eu... eu... — Mary Hellen parou de falar por um instante. Engoliu em seco e tentou de novo: — Ficarei bem.
Mary Hellen não sabia se tentava acalmar o estranho ou a si mesma.
Sentia-se mortificada pela reação involuntária. Nunca vira antes aquele moço. Coisas assim não aconteciam com ela. O homem poderia julgá-la uma moça fútil que...
Naquele instante seu estômago reclamou de fome em um tom audível, o que a embaraçou. Mary Hellen, sem se dar conta, pousou a mão na barriga e balbuciou:
—        Desculpe-me...
Christopher achou graça, mas nada havia de provo­cante em sua expressão ao dizer, com suavidade:
Eu gostaria de convidá-la para almoçar, mas... nem mesmo sei seu nome.
Mary Hellen. — Sua voz soou longínqua até mesmo para seus próprios ouvidos. — Mary Hellen Ritter.
Ela viu-se analisando o rosto atraente e másculo. A boca sensual, que sorria de modo tão charmoso, o rosto bem barbeado, o nariz reto, os olhos castanho-escuros com cílios densos e sobrancelhas grossas, e, por fim, a testa, maculada por pequenas rugas de preocupação.
Seus cabelos eram cor de café, e brilhavam. Alguns fios errantes curvavam-se sobre a testa, e Mary Hellen teve vontade de ajeitá-los com os dedos. Aquele jovem era muito atraente.
De súbito percebeu que arfava e que, pior ainda, encarava-o. Olhou para o lado.
Mas ele, maravilhoso como era, retomou a conversa como se nada tivesse acontecido:
Bem, Mary Hellen, deixe que eu lhe ofereça um almoço.
Imagine... Eu não poderia impor minha presença.
—        Bobagem! Seria uma imposição se você estivesse me impedindo de fazer algo. A verdade, Mary Hellen, é que estaria me fazendo um grande favor.
Mary Hellen analisou-o, certa de que ele estava prestes a dar alguma informação acerca do que o preocupava. Mas isso não ocorreu.
—        ...se permitisse que eu lhe pagasse uma refeição.
Mary Hellen sabia que nem devia considerar a oferta.
Aquele era um bom sujeito, simpático e atraente. Alguém que não precisava ouvir suas queixas.
Além do mais, tinha de encontrar um emprego, naquele dia, e não teria sucesso algum tagarelando ali com um homem simpático e atraente.
Mais um resmungar de seu estômago, e ambos sorriram.
—        O que me diz? Almoçará comigo? Vai me contar o que a está preocupando?
Mary Hellen suspirou. Estava com fome. E ao deixar que ele a convidasse para o almoço, estaria tomando uma boa decisão em termos financeiros.
  Apenas se você me disser como se chama. E... se também me contar o que o que o entristece.
  Sou Christopher Kimball.
A expressão de surpresa no semblante másculo perma­neceu, ao se acomodarem à mesa, com os cardápios na mão.
  Diga-me, como sabe, Mary Hellen?
  Como sei que você está com problemas? Poder-se-ia dizer que sou muito observadora.
Christopher assentiu, parecendo aceitar a explicação. Por isso, Mary Hellen decidiu ser bastante honesta.
—        Logo que passei pela porta, avistei-o analisando a xícara de café, como se contivesse algum mistério enig­mático que você, a todo custo, tentasse desvendar.
Christopher riu, um dos sons mais agradáveis que Mary Hellen já ouviu.
—        Certo.
O garçom anotou os pedidos.
—        Fale, Mary Hellen, o que houve entre você e o ge­rente deste estabelecimento?
O suspiro que Mary Hellen expeliu soou exausto até mesmo para ela.
—        O homem estava recusando meu pedido de colocação. É muito difícil para uma mulher encontrar trabalho em Kyreznóvia.
Christopher franziu a testa.
Bem, e o que você está fazendo desempregada neste país? Como sobrevive?
Estava trabalhando. Ensinava inglês a diversos gru­pos de crianças. Os oficiais do novo governo queriam lhes dar uma educação melhor. Era algo que o "país-mãe" jamais poderia lhes oferecer, e fazia parte dos planos primários dos novos líderes. Fui incluída neles. Eu e cerca de uma dúzia de outros professores de inglês.
Mary Hellen arqueou as sobrancelhas.
Mas tudo isso mudou ontem, quando os recursos para o programa foram cortados sem aviso prévio, — Passou a cochichar ao acrescentar: — É provável precisem de di­nheiro para formar um novo exército ou algo assim.
Você tinha um contrato?
Claro. Mas não vale muita coisa.
Ora, algo deve poder ser feito!
A paixão no tom ultrajado a alegrou, Christopher Kimbali exalava simpatia.
Decerto podem ser obrigados a honrar o acordo que fizeram.
Eu poderia lutar, Christopher, Mas isso demandaria muito dinheiro e mais tempo do que eu possuo. Decidi que o melhor para mim será aceitar a perda e encontrar outro trabalho para obter o suficiente para cobrir as des­pesas com a viagem até meu novo emprego.
E onde será? Ela sorriu, tímida.
Primeiro, preciso encontrá-lo. Então, poderei lhe contar. — Mas...
—        Olhe, está tudo bem. Tenho viajado pela Europa ensinando inglês há cinco anos, desde que me formei na faculdade. Algo parecido já me aconteceu antes; não tão de repente, talvez. Mas ocorreu. Sobreviverei. Algo acon­tecerá, estou certa disso.
O franzir de testa de Christopher mostrava seu ceticismo.
Mary Hellen soube que discutiria com ela, mas o gar­çom chegou com um prato cheio de comida.
Ela apanhou uma porção com o garfo e comentou:
—        Bem, já sabe o que ocorre comigo. Agora é sua vez.
Antes até mesmo de Mary Hellen ter tempo de mastigar a pequena porção de batata, já segurava uma fotografia da garotinha de Christopher, como ele chamava a criança pela qual viajara por metade do globo para adotar.
Mary Hellen ouviu-o resumir a história o mais rápido possível.
Relatou como nos Estados Unidos disseram-lhe que sua condição de solteiro não era problema algum, mas as regras haviam mudado. Fazia pouco fora encorajado a permanecer no país com a esperança de que o governo revertesse a decisão.
Enfim, Mary Hellen teve de apoiar o garfo no prato. Em sua garganta formou-se um nó que não a deixava engolir direito.
—        Não sei o que fazer, Mary Hellen. Tenho meu próprio negócio e é por isso que posso ficar por aqui alguns dias. Mas não poderei deixar minha empresa desacompanhada por muito tempo. Não sei o quanto mais poderei aguardar até que o governo reverta a decisão tomada. Vou ao De­partamento de Serviços à Infância duas vezes por dia. Explico a todos que puderem me ouvir que será melhor para Ekhatherina ir para casa comigo. Mas, até o mo­mento, não consegui convencer ninguém.
A dor e preocupação em seu olhar eram de partir o coração.
—        Você já viu Ekhatherina? Já passou algum tempo com ela?
Christopher fez sinal negativo com a cabeça, e sua ansiedade pareceu aumentar.
—        Disseram que a adoção está sendo muito questio­nada, por isso não deixam que nos encontremos ou crie­mos laços. Juram que estão apenas tentando poupar a nós dois da dor da separação. Compreendo isso, mas, Mary Hellen, eu já estou ligado à criança, e isso começou
semanas atrás. Sofro por não poder tê-la comigo.
Os maxilares dele ficaram tensos, e Christopher evitou fitá-la. Mary Hellen teve certeza de que ele estava prestes a chorar.
Aquele homem sofria, e muito. E por causa de uma garotinha que nem sabia de sua existência.
Ainda.
Sua dor despertou algo em Mary Hellen. Não sabia bem o que era. Um impulso a impeliu a agir antes que até mesmo tivesse tempo de ponderar sobre as conse­quências de seu comportamento.
—        Bem, Christopher — murmurou, trêmula, sentindo um frio na barriga. — Se para realizar esse sonho você precisa apenas de uma esposa, eu me sentiria feliz em
casar com você.

CAPÍTULO III


Mary Hellen não podia acreditar nas pala­vras que saíram de sua boca. Simplesmente entreabrira os lábios e a estranha oferta fora proferida.
Sabia o motivo de ter feito a sugestão de casamento. Sua motivação era-lhe muitíssimo clara.
Deu outra espiada na garotinha da foto, Ekhatherina. A criança de olhos escuros estava só no mundo. A simples idéia lhe despertava recordações dolorosas, que ameaça­vam fazê-la chorar, engoli-la por inteiro, caso as acalen­tasse por tempo demais. Piscou diversas vezes e afugen­tou as conjecturas melancólicas.
Mary Hellen não conhecia Ekhatherina, mas sentia uma afinidade incrível com a menina. Se pudesse ajudar a resgatar uma única alma solitária...
Dessa vez seu tom de voz foi mais forte ao repetir:
—        Eu ficaria feliz em me casar com você, Christopher.
Ele nada disse, os olhos arregalados demonstrando o tamanho de sua descrença. Evidente que estava tão atônito com a oferta quanto ela. Mais até.
Mary Hellen, então, sentiu mais confiança, certa de que tomava a decisão correta.
—        Ora, não estou me oferecendo para ser sua parceira por toda a vida. Você precisa apenas de uma esposa durante uns tempos, certo? Só para que possa adotar Ekhatherina.
— Sorriu. — Desse modo, conseguiremos um daqueles divórcios rápidos tão famosos em alguns Estados da Amé­rica do Norte. Não poderia ser mais simples, não acha? Christopher demorou um pouco para responder:
Por quê, Mary Hellen? Você nem mesmo me conhece! A intensidade do olhar dele deixou-a encabulada.
Isso não é nada...
Christopher inclinou-se para a frente e tomou-lhe a mão. O calor da pele dele causava arrepios a todo o corpo de Mary Hellen.
—        Não é nada? — Christopher repetiu, baixinho. — Pois acho que é um comportamento grandioso. Maior do que você possa imaginar.
O coração dela disparou.
—        Então, diga-me, Mary Hellen. Conte-me o motivo dessa atitude tão monumental e inesperada.
Com a mão livre, Mary Hellen ajeitou a cabeleira e depois olhou pelo salão. Era um gesto de nervosismo, apenas para ter tempo de raciocinar antes de falar.
Christopher não compreenderia suas razões. No en­tanto, talvez viesse a compreender. Mas ela gostaria de se expor tanto a um estranho?
Não sabia. Se Christopher decidisse aceitar seu ofereci­mento, eles se casariam, ela o acompanharia para pegar a filha e até mesmo poderia ir com os dois ao aeroporto.
Em breve, entretanto, pai e filha estariam voando rumo ao oeste em um grande avião... e Mary Hellen nunca mais tornaria a ver aquele homem. Sendo assim, por que deveria lhe apresentar a parte mais dolorosa de seu passado?
Não devia, decidiu, cerrando os lábios. Inalou profun­damente e procurou fazer uma expressão alegre ao fitá-lo.
—        Olhe, Christopher, eu posso ajudá-lo. Deixe-me fazer isso.
—        Mary Hellen, o homem do Departamento de Serviços à Infância, aquele que rejeitou meu pedido de adoção, ofereceu-se para encontrar uma esposa para mim. Por uma taxa, é claro. Meros cem dólares. E tudo o que uma esposa fictícia vale nos dias atuais?
Mary Hellen abriu a boca, horrorizada e surpresa.
—        Eu recusei — prosseguiu Christopher, com rapidez. — Anos atrás decidi que casamento não faria parte da minha vida.
Imóvel, Mary Hellen limitava-se a imaginar o que teria acontecido para forçá-lo a tal conclusão. "Anos atrás", Christopher dissera. Mas parecia tão jovem! Mais velho do que ela, sem dúvida, mas mesmo assim jovem. No início da casa dos trinta anos, achava. Pelo visto, novo demais para privar-se de relacionamentos amorosos e compromissos duradouros. O que teria ocorrido para...
Christopher riu de si mesmo por aquele instante de melancolia.
—        Contudo, casar-me com o único propósito de adotar Ekhatherina... Isso eu faria.
Permaneceram em silêncio, constrangidos, durante al­guns minutos.
—        Acho que as pessoas chamariam de casamento de conveniência. — Mary Hellen obrigou-se a sorrir.
  E para você, o que é? A pergunta a espantou.
  Para mim?
—        Caso eu concorde... e ainda não tenho certeza se concordo... como se beneficiará, Mary Hellen? O que po­derei fazer em retribuição?
Mary Hellen aprumou-se e soltou a mão que ele ainda segurava.
  Não espero nenhum benefício.
  Mas seria justo!
  E desde quando a vida é justa? — O sorriso dela não continha muito humor. — A situação em que estou agora bem responde a esta questão.
  Oh, sim, sua situação... Hum... Tive uma idéia! E se eu lhe pagasse pelos problemas em que se envolverá?
Mary Hellen fez um movimento involuntário, como se tivesse levado um tapa no rosto.
—        Não aceitarei dinheiro seu. Não foi por isso que fiz a proposta.
Christopher ergueu as mãos, apressando-se em corrigir o insulto.
  Eu não havia sugerido isso. Está bem. O que acha de deixar-me pagar por suas despesas de viagem para o próximo local aonde for dar aulas de inglês? Passagem de avião, hotel, refeições...
  Não. Não poderia deixá-lo fazer isso. É muito caro.
  Tolice! Se este será um verdadeiro casamento de conveniência, deve ser conveniente para nós dois, certo?
  Mas... — começou a falar, porém Christopher silenciou-a com um aceno.
  Nada de "mas". Mary Hellen, tenho estado neste hotel há dias. Vi-me prestes a desistir. Você me deu es­perança, fez uma oferta para realizar meus sonhos. Se decidir mesmo ir adiante no que propôs, me tornará pai. O pai de Ekhatherina. Não percebe o que isso significa para mim e para aquela garotinha? Tem de deixar que eu a recompense de alguma maneira. As despesas de viagem serão o mínimo que poderei fazer. O mínimo!
Christopher era persuasivo. Com aquela conversa de realização de sonhos e de tornar-se pai... Sim, era muito persuasivo, decidiu Mary Hellen. Enfim, a rigidez em seus ombros suavizou, e ela voltou a sorrir.
Bem, Christopher, confesso que não estava com vontade de passar os próximos meses trabalhando como garçonete.
As pupilas dele cintilaram de excitação.
—        Mal posso acreditar, Mary Hellen! Eu vou me casar!
A emoção dele a contagiou. A súbita animação com o casamento após ter declarado sua aversão ao compro­misso deixava-a feliz.
—        Serei o pai de Ekhatherina!
Mary Hellen sentiu a garganta ficar seca. Estava de­cepcionada. Claro, a animação de Christopher fora ape­nas por causa da adoção da menina. Como pudera ser tão tola em imaginar em algo mais?
—        Sim. — Fez o possível para imprimir certa alegria à entonação. — E eu encontrei um modo de chegar ao meu novo local de trabalho. Onde quer que seja.
O sorriso de Christopher era muito sensual ao estender os dedos na direção dela.
—        E então? Temos um acordo? Ajudaremos um ao outro?
Após uma breve hesitação, Mary Hellen selou o pacto com um cumprimento.
—        Sim, temos.
Uma sensação estranha a assaltou. Encontrara uma solução para seu dilema. A resposta viera, assim como soube que viria. E com aquela solução, recebia a opor­tunidade de ajudar alguém.
Devia estar esfuziante. Mas não estava. Ao contrário, experimentava uma estranha e intensa tristeza. E isso a confundia demais.
—        Ah, o amor é tão... como eu diria... grandioso!
Mary Hellen acabara de conhecer Viktor, o tradutor que Christopher contratara ao chegar ao país. O jovem concordara em comparecer à cerimônia matrimonial e agir como a necessária testemunha.
Viktor era muito espirituoso. Claro, a opinião de Mary Hellen podia estar sendo colorida pela dúvida que expe­rimentava, junto com um pensamento mais aprofundado a respeito do que fazia.
Estaria mesmo agindo de maneira correta ao casar-se com um perfeito estranho?
"Evidente que sim!"
Mas então Viktor, muito alegre, proclamou ao mundo, em voz bem alta:
—        O amor é maravilhoso!
Toda aquela conversa sobre sentimentos nobres a dei­xava com os nervos à flor da pele. E, pelo que podia observar, Christopher também ficava cada vez agitado.
—        Eu já disse, Viktor — Christopher falou. — Esta união não tem nada a ver com amor.
Viktor pôs-se a sussurrar:
—        Mas, sr. Kimball, é de mau agouro não falar da mais poderosa das emoções no dia de um enlace.
Após um momento de hesitação, prosseguiu:
—        Não precisa ser seu amor o que proclamei. Pode ser em relação a outra pessoa. No entanto, é hábito exal­tar e glorificar o amor, afeto e devoção... todos os assuntos do coração, enfim, em um dia como este.
A névoa que parecia ter baixado sobre Mary Hellen no decorrer das quarenta e oito horas necessárias à es­pera oficial para a cerimônia estava mais intensa. "Mau agouro e um casamento sem amor. Nossa, isso resume a situação com mestria!"
Ora, mas por que Mary Hellen sentia-se tão... vamos dizer assim... condenada a uma sentença terrível? Não fazia sentido. Olhou para Christopher e viu que seu "noi­vo" também sofria do mesmo mal,
Viktor foi adiante, sempre com alegria:
—        Vejam ali. — Apontou para um homem e uma mulher sentados em um banco próximo. — Há amor e compromisso no modo como um segura a mão do outro. E lá... — Indicou outro casal. — O beijo que estão partilhando é doce e puro.
Viktor pendeu a cabeça de leve para trás e suspirou.
—        Ah, sim, o amor é grandioso! — arrematou o rapaz, começando a tornar-se repetitivo, na opinião de Mary Hellen.
Christopher fitou-o com a testa franzida.
Maus presságios — Viktor advertiu-o com voz mu­sical. — E já que vocês não estão tendo uma cerimônia tradicional...
Aquelas festas prosseguem durante dias — Mary Hellen comentou.
Bem, então você deve no mínimo concordar co­migo nisso.
Após um suspiro impaciente, Christopher assentiu:
Sim, Viktor. O amor é grandioso. Isto está de acordo com os costumes?
Terá de estar.
Então, o intérprete arqueou as sobrancelhas para Mary Hellen, aguardando uma resposta.
—        Agora você está pressionando demais — Christopher queixou-se ao jovem.
Mary Hellen pôde apenas sorrir. O que esperavam dela? Estava se casando, sem músicas, flores, alianças ou um lindo vestido.
E até mesmo seu sorriso forçado esmoreceu diante des­se pensamento.
O que havia com ela?
Ambos optaram pela simplicidade. Seria melhor assim. Afinal, música, flores, alianças e um belo vestido de noiva eram para pessoas que queriam mostrar aos familiares e amigos o que sentiam pelo futuro cônjuge.
Não amava Christopher. Tampouco ele a amava. Sabia disso. "Sendo assim, qual o problema?"
"Uma mulher não tem o direito de esperar um pouco de mimo no dia de seu matrimônio?", uma voz interna indagou. "Não", veio a negativa firme e silenciosa, bas­tante racional. "Não nessas circunstâncias."
Ao dirigirem-se ao prédio que abrigava o local de realização de uniões civis, Mary Hellen simulou um sorriso artificial.
O corredor era longo e decorado com mau gosto, mas ela e Christopher sabiam o caminho a percorrer, pois haviam ido até lá para registrar o pedido no mesmo dia em que Mary Hellen lhe fizera a proposta.
A sala encontrara-se lotada, na ocasião, assim como no presente momento.
Parecia que os cidadãos de Kyreznóvia não se sentiam perturbados pela situação caótica do país. Ao contrário, as pessoas dali davam a impressão de estarem entusias­madas pelo nascimento de sua nação e mostravam a ex­citação de diferentes maneiras. O casamento parecia ser uma delas.
Pediram para Mary Hellen, Christopher e Viktor se sen­tarem. Acomodaram-se na ala de espera lotada de casais afetuosos e risonhos. Mary Hellen via muito bem que o amor era o motivo principal da união daqueles casais.
Decerto, havia no mínimo uma dúzia de outros motivos para as pessoas se casarem. Mary Hellen já vivera em diversas culturas para saber disso.
Em alguns países, os enlaces ainda eram planejados pelos pais dos jovens, às vezes quando eram apenas bebês ainda. Eram como relacionamentos de negócios por toda a vida, embora muitos dos rapazes e moças vez ou outra acabassem desenvolvendo profundo afeto pelos compa­nheiros que lhes foram escolhido.
As mulheres, nessas situações, não iniciavam a união apai­xonadas, mas decerto sentindo-se necessárias... queridas.
Essa única palavra bastava para deixar Mary Hellen com as mãos frias. Começou a entrar em pânico. Foi quando sentiu o olhar intenso de Christopher pousado nela. Encarou-o.
Embora não houvesse como Christopher saber o que lhe ia em mente, era lógico que notava que algo a per­turbava. Talvez, com cavalheirismo, ele decidisse recusar sua oferta. Era possível que não fosse tarde demais para Mary Hellen escapar do tolo arranjo.
Christopher inclinou-se e sussurrou a seu ouvido:
—        Sei que está repensando a situação, Mary Hellen. Pressenti isso durante toda a manhã. Também me sinto esquisito a respeito.
Após um instante evitando seu olhar, Christopher res­pirou fundo e fitou-a.
—        Mas, se não prosseguirmos com nosso arranjo, não deixarão que eu tenha Ekhatherina.
No instante em que o nome da garotinha passou por aque­les lábios, Mary Hellen estendeu a mão e tocou-o no braço.
—        Está tudo bem — garantiu-lhe, não se sentindo mais tão insegura. — Estou apenas um pouco nervosa. Ficarei bem.
O sorriso de Christopher foi tênue, mas sua gratidão, límpida qual o mais fino dos cristais.
Pouco após a breve conversa, foram chamados pelo homem que os casaria. No país, era o equivalente a um juiz de paz. A hesitação e ansiedade permaneciam em Mary Hellen, em­bora estivesse ocupada demais explicando a Christopher tudo o que era dito para se concentrar na incerteza.
Quando o celebrante lhes perguntou se ambos estavam ali de livre e espontânea vontade, Mary Hellen afirmou, com meiguice, na língua local:
—        Sim.
Então o juiz repetiu a pergunta a Christopher.
Até mesmo Viktor teve de responder a indagações acer­ca dos dois.
Houve um momento mais ameno quando Christopher atrapalhou-se com as palavras no idioma da Kyreznóvia, e todos riram. Após uma segunda tentativa, conseguiu expressar-se e, por fim, foram declarados marido e mulher.
Viktor cutucou Christopher com o cotovelo.
—        Beije-a!
Toda a sala quedou em silêncio. Christopher virou-se para Mary Hellen, olhou para o homem que os havia casado, depois para Viktor, e de novo para Mary Hellen.
Por um instante, ela achou que Christopher se negaria a cumprir aquele ritual em particular. Sentiu um frio no estômago, a atenção migrando dos olhos questionadores à boca dele, e retornando a seus olhos.
Mary Hellen temia que Christopher a beijasse. Contudo, também sentia o mesmo quanto à opção oposta. A confusão e o caos de tais conjecturas faziam sua cabeça girar.
Christopher virou-se na direção dela e de repente seus lábios pressionavam os de Mary Hellen. O beijo foi firme, embora gentil, caloroso e...
Terminou quase antes de realmente começar. Mary Hellen sentiu-se aliviada e decepcionada. Jamais expe­rimentara uma junção de emoções tão díspares.
—        Vamos — disse Christopher, o sussurro rouco contra sua orelha.
Mary Hellen sentia-se como se estivesse no corpo de outra pessoa, vendo Christopher apertar a mão do juiz de paz, sorrindo com frieza enquanto o homem proferia desejos de felicidade para todo o sempre de um modo que ele não compreendia. Após aceitar alguns papéis do celebrante, o marido de Mary Hellen tocou-lhe o cotovelo e conduziu-a para a porta.
Seu marido...
Mary Hellen arfou. Sentia-se meio dopada, e estava tão trêmula!
O que era ridículo. Fazia interpretações exageradas das sensações tolas que passavam por sua mente. Mas eram emoções muitíssimo fortes, o que a surpreendeu. Pareciam não ter a menor intenção de ir embora, e faziam-na respirar com dificuldade.
Mary Hellen e Christopher passaram pela porta frontal e foram recepcionados por raios brilhantes de sol. Ela inalou o ar da tarde, tentando manter a compostura.
—        As pessoas no Departamento de Serviços à Infância esperam por nós, Mary Hellen. Você virá comigo?
—        Claro, Christopher.
Ele virou-se para Viktor.
—        Bem, meu amigo, gostaria de agradecer por toda a ajuda.
—        Isso soa como um "adeus", sr. Kimball.
Christopher deu de ombros.
  Mary Hellen poderá traduzir para mim, então eu achei...
  Oh, não! — Viktor protestou. — Desejo ficar com você até o final. Quero conhecer aquela garotinha.
A antecipação cintilando nas pupilas de Christopher emocionou Mary Hellen e dissolveu seus sentimentos obs­curos. O sonho daquele homem estava prestes a se rea­lizar. Não podia culpar Viktor por querer estar junto quando tal ocorresse. E ela estava feliz por fazer parte daquilo também.
—        Bem — Christopher falou a ambos —, desse modo, vamos buscar minha filha.
Christopher perambulava de um lado para o outro do escritório.
—        Por que estão demorando tanto? A papelada para a adoção estava em ordem desde o começo. Queriam ape­nas que eu tivesse uma esposa. Tenho uma. O que acon­tece agora?
O jovem rosto de Viktor demonstrava toda sua preo­cupação e comiseração ao consultar o relógio pendurado na parede.
Mary Hellen deixou o olhar seguir o marido em cada movimento. Contemplava-o o máximo possível. Após aquele dia, nunca mais tornaria a vê-lo. Queria algumas recordações para levar consigo quando partisse.
Não era tola o bastante para acreditar que apaixonara-se por Christopher Kimball desde o momento em que o encontrou no restaurante alguns dias atrás.
Ele ainda era um desconhecido. Mary Hellen sabia apenas que Christopher amava uma garotinha que nunca vira cara a cara. E fora o bastante para convencer Mary Hellen de que era um homem extraordinário.
Quis ajudá-lo, e o fizera. Devia estar se sentindo rea­lizada. Mas então por que estava em conflito?
—        Acha que estão questionando o casamento? — Christopher quis saber.
O medo dele atingiu a alma de Mary Hellen.
—        E por que deveriam? — Ela baixou a entonação e acrescentou: — Não fazem idéia de que nós dois fizemos um... um... uma barganha.
Entretanto, Mary Hellen nem ao menos supunha o que acontecia atrás da porta fechada.
—        Eles enviaram alguém para buscar sua menininha — Viktor falou com mais confiança do que sua expressão refletia. — Tenho certeza.
Christopher continuava a caminhar de um lado para o outro.
Mary Hellen virou-se para observar a paisagem da janela.
Nesse instante, a porta da sala de espera se abriu, e o funcionário do Departamento de Serviços à Infância entrou com uma criança de cabelos escuros nos braços. Cruzou o ambiente e, sem dizer uma palavra, estendeu-a a Christopher.
Tudo ficou imóvel, o silêncio, absoluto.
Mary Hellen podia ouvir o próprio coração batendo a um volume impressionante.
—        Ekhatherina...
A euforia no murmúrio provocou um arrepio pela espinha de Mary Hellen. A felicidade e o alívio faziam os belos olhos de Christopher cintilarem e ficarem rasos d'água.
Mary Hellen teve de morder o lábio para não chorar. Viktor também estava muito emocionado, pois seu pomo-de-adão se contraía.
Depois de mais algumas formalidades, o homem do governo cumprimentou Christopher e despediu-se.
Viktor aproximou-se, sorriu de um modo todo especial para a menina e tocou-lhe o queixo.
Você é uma menininha de sorte. Desejo-lhe muita felicidade, sr. Kimball.
Obrigado por tudo, Viktor.
Os homens trocaram apertos de mão.
—        Se você vier a minha cidade de novo, sr. Kimball, por favor, procure por mim.
Christopher assentiu.
—        Pode apostar que o farei.
O rapaz fez um aceno para Mary Hellen e se foi.
Seguiu-se um momento de estranha quietude. Mary Hel­len percebeu que Ekhatherina parecia insegura, uma reação muito natural para uma criança, naquelas circunstâncias.
As adoráveis íris escuras da menina mostravam como se sentia perdida, mas Mary Hellen sabia que muito em breve brilhariam de adoração e amor por Christopher. Os dois desenvolveriam um forte laço de pai e filha. Não tinha a menor dúvida disso.
Você quer que eu os acompanhe até o hotel? — ofereceu-se, solícita.
Ficarei aqui durante algum tempo, Mary Hellen. Quero dar a Ekhatherina algum tempo para acostumar-se comigo.
Mary Hellen camuflou a decepção atrás de um sor­riso largo.
—        Compreendo
Christopher queria ficar sozinho com Ekhatherma. Isso era óbvio.
—        Será um pai fabuloso, Christopher Kimball.
Então ele fez algo inesperado: estendeu o braço e, com toda a delicadeza, acariciou-lhe a face. O momento era má­gico, especial, e Mary Hellen saboreou cada delicioso segundo.
  Isso não teria acontecido sem você, Mary Hellen. O sorriso dela ampliou.
  Fiquei muito feliz em poder ajudar.
—        Você tem meu cartão. Ligue-me assim que encontrar o próximo local onde dará aulas. Farei com que chegue até lá, e na primeira classe.
Tanta generosidade causou-lhe riso.
Ora, mas eu não sou uma garota de primeira classe...
Sim, você é, Mary Hellen Ritter.
Ela ficou triste quando ouviu-o falando seu sobrenome de solteira. Entristecia-a constatar que Christopher não pensava nela como a sra Mary Hellen Kimball.
Mas que tolice! Por que deveria?
—        Pode estar certa de que você pertence à primeira classe, sim, senhora.
Mary Hellen apenas encarou-o por um instante, apre­ciando o calor daquele toque. E, por um breve momento, sentiu-se necessária. Querida.
A emoção que a tomava num crescendo ameaçava fazê-la desabar em prantos a qualquer momento.
Deu um passo para trás e piscou para esconder as lágrimas antes que Christopher notasse. Aquilo em nada se referia a ela. Pertencia a Christopher e a Ekhatherina.
—        É uma felicidade, para mim, ter podido auxiliá-lo, Christopher.
Olhou para os dois e, naquele segundo, teve certeza absoluta de que agira com acerto casando-se com aquele homem e, assim, permitindo-lhe adotar aquela criança tão necessitada.
Não resistiu e acariciou os dedinhos de Ekhatherina.
— Seu papai lhe dará uma boa vida, meu amorzinho.
Em seguida, repetiu as palavras no dialeto nativo da criança.
A sombra de um sorriso brincou nos lábios da menina, antes que o misto de confusão e temor retornasse a seu semblante.
Ekhatherina ficaria bem, Mary Hellen estava certa disso. Com um pai amoroso como Christopher, como po­deria ser diferente?
Voltou a fitá-lo. Por alguma estranha razão, não queria ir embora. Mas era hora.
Incapaz de dizer "adeus", apenas acenou. E deixou-o sozinho com Ekhatherina.

capÍtulo IV


Christopher concluiu que não havia uma criança mais adorável e preciosa em todo o mundo que a sua. Podia estar exausto, mas, ao sentar-se em uma cadeira de seu quarto de hotel, o coração batia como louco e um nó travava-lhe a garganta.
Aquilo era real. Seu sonho, enfim, se tornara realidade. Era pai. "O papai de Ekhatherina!"
Cerrou os dentes para obrigar-se a conter as emoções. Precisava ficar composto e relaxado, pelo bem da menininha.
Diversas vezes desde que deixaram o Departamento de Serviços à Infância naquele dia a pequena esteve prestes a chorar. O queixinho tremera, os olhos lacrimejaram, mos­trando seu temer. Mas em cada vez Christopher fora capaz de distraí-la e evitar o pranto, com rapidez e eficiência.
Usara o que estivera à mão: um pedacinho de gelo do refrigerante, uma colher da mesa de jantar, o novo chocalho que comprara para ela. Mas manter a mente de Ekhatherina ocupada com novas e interessantes coisas era trabalhoso.
Mesmo com as dificuldades, contudo, Christopher era incapaz de conter-se diante da felicidade que lhe enchia o peito. Experimentou a sensação de plenitude no instante em que Ekhatherina foi colocada em seus braços. A adoção parecia-lhe a atitude mais correta que já tomara.
Sua filha estava sentada na cama de abrir que a arrumadeira do hotel trouxera. Não havia um berço dis­ponível. Ah, bem, pensara Christopher, seria apenas por uma noite. Estariam voando para os Estados Unidos no dia seguinte.
Ekhatherina brincava com o novo chocalho, esboçando um sorriso sempre que o objeto emitia algum som. Era barato, mas encantava-a, e Christopher notou que o bebê tivera acesso a pouca coisa com que brincar, no orfanato,
Levara-a para comprar duas mamadeiras, um novo vestido, pijama e, claro, fraldas.
Adquiriram alguns brinquedos também. Apenas pou­cos itens pequeninos e coloridos. Não queria ter de car­regar muita bagagem no avião.
Aquele que Christopher mais gostara fora uma boneca de cabelos ruivos... que fazia-o lembrar-se de Mary Hellen.
Em várias ocasiões naquela tarde Mary Hellen passara por seus pensamentos. A gratidão pelo que havia feito era tão imensa que Christopher julgava-se incapaz de pagá-la.
Bem, veria o que era possível fazer quando Mary Hel­len, por fim, entrasse em contato para que fizessem os acordos para a viagem.
Observou ao redor, recordando como o matinal fizera os cabelos de Mary Hellen parecerem puro fogo. Ficou ima­ginando o que teria compelido uma mulher a ser tão ge­nerosa com um total estranho. Ela aceitara casar-se e...
O riso infantil interrompeu suas conjecturas, e a aten­ção voltou-se para a filha, Christopher gargalhou, feliz por poder ver Ekhatherina se divertindo com o chocalho
No final daquela tarde pai e filha foram jantar no restaurante do hotel. O cardápio não era adequado a crianças, por isso Christopher acabara pedindo diversos tipos de vegetais cozidos, e amassara-os com o garfo.
Ekhatherina comera com incrível apetite, e Christo­pher dedicara-se tanto a alimentá-la que a galinha à Kiev e o kasha que pedira para si ficaram frios antes que tivesse saboreado uma porção sequer.
Mas aquilo não importava, sobretudo por saber que a fome da filha fora saciada. Entretanto, quando isso acon­teceu, Ekhatherina logo perdeu o interesse pela comida, utensílios e guardanapo, e começou a resmungar.
Por isso, Christopher teve de interromper a refeição para encontrar algo mais que a distraísse. Aprendia mais uma tarefa de pai: conformar-se com comida fria.
A hora do banho fora uma experiência à parte. Chris­topher tirara do rosto e dos dedos de Ekhatherina pedaços de legumes do jantar, tendo a menina o tempo todo gri­tando de alegria e espirrando água para todo lado. A camisa dele ficara tão molhada quanto a garota.
No todo, fora um dia longo e esquisito. E, embora Chris­topher ainda experimentasse os efeitos da dose extra de adre­nalina causada pela adoção bem-sucedida, tinha de admitir que estava grato por ser hora de ir dormir. Estava exausto.
O colchão onde Ekhatherina estava sentada parecera bem macio, mas, assim que chegou Christopher constatou que era estreito demais para a menina dormir sem o risco de cair no carpete no meio da noite. Por isso, fez o melhor possível para proteger as laterais expostas, usando os travesseiros de seu próprio leito e os cobertores também. E encontrara um travesseiro extra no armário.
Estudou o compartimento macio que criara em volta da caminha de Ekhatherina e suspirou. Aquilo deveria mantê-la segura. Além do mais, para Christopher não fariam falta cobertas e travesseiros, pois poderia apoiar a cabeça no braço, e a noite de verão estava muito quente.
E duvidava que fosse conseguir permanecer muito tem­po deitado, de qualquer maneira, porque se via excitado demais com as novidades.
Um riso de puro deleite o fez relaxar um pouco, e o som despertou a curiosidade de Ekhatherina, que fitava-o com seus enormes olhos escuros.
A menina não parecia estar com metade do medo de­monstrado no início daquela tarde. Lidava bem com es­tranhos, e Christopher suspeitava de que isso advinha de sua experiência no orfanato. Decerto a pequena nunca sabia quem iria cuidar dela no dia seguinte.
Mas Christopher não seria um estranho por muito tem­po. A cada oportunidade faria com que estivessem mais próximos. Sentia isso em seu coração.
Ekhatherina deixou o chocalho de lado e voltou a fitá-lo. Então, coçou os olhinhos.
Como era linda... E estava exaurida.
—        É hora de se deitar, querida.
Falando com suavidade e aproximando-se devagar, Christopher pegou o chocalho e colocou-o fora do alcance da menina. Aos poucos foi baixando as costas de Ekha­therina até pô-la deitada no berço improvisado e seguro que havia criado.
Foi quando o lábio inferior do bebê tremeu e pareceu prestes a chorar.
—        Está tudo bem, anjinho. E hora de descansar. Ti­vemos um longo dia. Papai também está exausto.
Assim que disse a palavra "papai", uma sensação de intensa alegria tomou-o. Era o pai daquela criança. Pegou-a no colo, apoiando a cabecinha contra o ombro, mas as lágrimas dela rolaram. Christopher respirou fundo e sentiu o perfume suave da filha.
Calma, amor. Está tudo bem.
Pisne — disse Ekhatherina, o choro tornando difícil a pronúncia.
O quê? Você quer seu chocalho? — Pegou o brin­quedo e balançou-o de leve, mas Ekhatherina apenas fi­cou mais agitada.
A menina procurou afastar-se dele, soluçando. Assus­tado com a mudança de humor, Christopher, atrapalhado, deixou de lado o chocalho. Pressionou a mão contra as costas dela para que não caísse de seus braços.
—        Nossa! — falou surpreso, o tom de voz um pouco mais alto do que pretendera.
Ekhatherina chorou mais alto.
—        Pisne! — repetiu vezes e vezes, entre soluços.
Christopher pousou-a no colchão, e ela acalmou-se
Mas apenas por alguns segundos. Demonstrava expec­tativa, aguardando por algo. Logo o pranto voltou a cair. E Christopher sentiu-se, de súbito, inepto.
O aborrecimento de Ekhatherina tornava-se maior a cada instante. Ela queria alguma coisa, sem dúvida alguma.
—        Está com sede? — Christopher foi até o banheiro onde havia colocado uma mamadeira com suco em um pote cheio de gelo para mantê-ia fria. — Aqui está, querida.
Ofereceu-lhe a mamadeira, mas ela a empurrou.
Mais uma vez Ekhatherina repetiu o termo que Chris­topher não compreendia.
Bem, não queria os brinquedos. Nem mamar.
Uma idéia lhe ocorreu... talvez estivesse com calor. De imediato, abaixou-se e removeu os sapatinhos tricotados que comprara naquela tarde.
Mesmo assim, a garota chorava.
Ele verificou a fralda. Seca.
O choro tornou-se mais alto, a ponto de quase ensurdecê-lo.
Christopher fez uma pausa, coçou o queixo, passou a mão nos cabelos, a sensação de incompetência aumen­tando segundo a segundo.
Não imaginara que tornar-se pai fosse uma tarefa fácil. Previra que as responsabilidades de criar um ser humano seriam imensas. Mesmo antes de deixar a América do Norte, passara horas planejando o que faria por aquela garotinha quando, enfim, os dois passassem a constituir uma família.
Vestiria o bebê, cuidaria para que tivesse refeições bem balanceadas, cuidaria de Ekhatherina quando ela estivesse doente. Riria com a menina em momentos de alegria. Ensinar-lhe-ia jogos.
Pegaria vagalumes em noites quentes como aquela. Prepararia biscoitos de manteiga de amendoim com a filha nas tardes frias de outono.
Assistiriam a programas infantis juntos. Ensinaria a filha a contar e a recitar o alfabeto. Seguraria o banco de sua bicicleta, correndo ao lado dela enquanto Ekha­therina aprendia a pedalar e a se equilibrar.
E, quando Ekhatherina tivesse idade suficiente, seria matriculada na melhor escola particular. Christopher fa­ria com que tivesse aulas de piano e balé, e participasse de todas as atividades que a interessassem. Também guardaria dinheiro para pagar seus estudos na faculdade.
Esses eram apenas alguns dos planos que fizera du­rante os dias precedentes à adoção. Porém, o fato de estar ali em pé vendo a garotinha soluçando, querendo "alguma coisa"... e ele não sabendo o que era...
Christopher achava que seu coração iria se partiria ao meio. E aí, entrou em pânico.
Baixou as pálpebras e inalou o ar, sem pressa, uma sombra densa descendo sobre ele. Como pôde acreditar que seria capaz de administrar tudo aquilo?, condenou-se. Como achou que seria hábil para assumir a imensa tarefa que era zelar pela vida daquela criança pequenina?
Sua pulsação disparava, mas dessa vez não era pela euforia ou alegria. Devia-se à dúvida quanto à habilidade em fazer o melhor por Ekhatherina.
Quando olhou para cima, avistou a boneca de cabelos ruivos que comprara para ela. A boneca que fazia-o lembrar-se de... Mary Hellen. O nome foi sussurrado em sua mente como uma fresca brisa de primavera.
Com certeza ela podia auxilia-lo. Sim, saberia o que Ekhatherina pedia. Seria capaz de ajudá-lo a conter as lágrimas da menina.
Fitou o aparelho telefônico e quase desmaiou. Não fazia idéia de qual o número do telefone dela. Nem mesmo se possuía uma linha, na verdade. Contudo, sabia qual seu endereço. Pegara a naquele dia em um táxi para irem se casar.
Consultou o relógio de pulso e decidiu que não era tarde demais. Ela, na certa, estava acordada. Se estivesse em casa...
Recusou-se a imaginar que seu plano pudesse não dar certo, Mary Hellen em instantes viria ali para ajudá-lo, e ia de muito boa vontade.
— Vamos querida — disse com suavidade, sabendo muito bem que Ekhatherina não podia escutá-lo por cau­sa do choro. — Iremos dar um passeio de carro.
Mary Hellen sentou-se à mesa da diminuta cozinha de seu apartamento minúsculo, O queijo que mordiscava, junto com o delicioso pão integral, era seu jantar.
Analisou anúncios de emprego observando com atenção a página ande eram anunciadas vagas para professores. De modo ausente, estendeu a não e afofou a cabeleira úmida.
— Partilhava o banheiro com os outros dois apartamentos do térreo, o que não era tão ruim assim. Mas não gostava de ficar muito tempo no chuveiro, por isso lavava os cabelos dia sim, dia não.
Após saborear o último naco, usou o guardanapo de papel e ajeitou com os dedos as mechas longas e onduladas.
Sempre gostara de deixar os fios secarem ao natural. O calor intenso do secador deixava-os revoltos demais.
Suspirou. Durante toda a noite ocupara-se das mais diversas tarefas: arrumar a casa, que já estava em ordem, lavar algumas roupas íntimas, tomar um banho rápido, jantar, analisar a mesma página do jornal vezes e vezes.
Mas o fato de focar-se na rotina simples mantinha sua mente regrada. Prevenia-a de divagar e pensar em seu comportamento tão diferente dos últimos dias. Como o casamento com um homem que jamais vira antes.
Meneou de leve a cabeça, constatando que essa não era toda a verdade. O rapaz tão atraente com o qual trocara votos diante de um juiz de paz era quem a per­turbava, e não o matrimônio em si.
Christopher... Apenas recordar seu nome despertava-lhe uma vívida imagem do belo rosto.
Soube que, ao casar-se com ela, Christopher Kimball a estaria usando. Mas a oferta partira de Mary Hellen. Quisera ajudá-lo. Não, constatou, quisera ajudar aquela garotinha, a criança com a qual Mary Hellen tinha mais em comum do que desejava admitir.
Entretanto, ao lutar ao lado de Christopher para efetivar a adoção, Mary Hellen sentira uma espécie de laço a uni-los. Não era uma total sandice, era? Havia outras razões além do amor para unir as pessoas. E ela e Chris­topher haviam encontrado uma: a pequena Ekhatherina.
Fechou os olhos e, sem esforço algum, lembrou-se do olhar de Christopher quando agradeceu por sua ajuda. Até tocara-lhe a face.
Ergueu as pálpebras. Um temor vago e amedrontador causou-lhe um frio na barriga. A emoção confundia-a e a fez olhar ao redor, como se buscando algo com que ocupar-se, uma tarefa qualquer, que a distraísse.
Levantou-se, levou prato e copo até a pia, lavou e secou-os, guardando-os em uma prateleira. Mas a sensação estranha permanecia na região do estômago, dando-lhe a impressão de que comera não um delicioso sanduíche de queijo, mas algo sem sabor.
O que era ridículo! Ajudara uma órfã a encontrar um lar e um homem a adotar uma criança.
Mas Christopher despertara-lhe emoções profundas... as quais não compreendia. A atração era clara, mas qual­quer mulher teria achado aquele moço lindo.
Entretanto, sentiu um medo e uma apreensão intensos. Não temia Christopher. Não. Não era isso, de forma al­guma. A sensação vinha de algum lugar dentro dela.
Mary Hellen suspirou e foi para a modesta sala de estar. Ligou o rádio. Já era hora de deixar de perder tempo com o assunto.
Christopher Kimball já prosseguia com a vida. Era melhor que ela parasse de recordar o incidente e também prosseguir vivendo.
Uma batida à porta causou-lhe um arrepio de apreensão. Não costumava receber visitas. Talvez fosse Antonetta. Os saquinhos de chá no armário da vizinha nunca duravam até o final do mês. Mas Mary Hellen não se importaria em oferecer uma xícara à amiga. Sobretudo naquela noite, quando necessitava tanto de alguma distração.
Os gritos da criança puderam ser ouvidos mesmo antes de Mary Hellen atender. Ao escutá-lo, franziu a testa, confusa, e ainda assim a visão de Christopher e Ekha­therina a seu batente surpreendeu-a.
Qual o problema? — perguntou, puxando Christo­pher pela camisa para que entrasse. — O que aconteceu? Ekhatherina se machucou?
Não está machucada, Mary Hellen, mas aborrecida. Quer algo... Não pára de dizer o que é, vezes e vezes, mas eu não compreendo. Ekhatherina não pára de chorar de pedir sabe Deus o quê.
E o que é? — Mary Hellen indagou quase aos berros, para fazer-se ouvir sobre os soluços de Ekhatherina, — O que o bebê estava dizendo?
—        Peez, acho que era isso,
Mary Hellen alisou a perninha da criança,
—        Está bem, querida, diga o que está querendo.
Ekhatherina escondeu o rosto no pescoço de Christopher.
—        Que Deus me ajudei — a prece sussurrada dele foi acompanhada por um breve olhar para o teto, — Ekha­therina, amorzinho, está tudo bem, Tudo está bem.
Mas a tensão em sua voz e em cada músculo do corpo descreviam uma situação muito diferente para Mary Hellen, O olhar de Christopher implorava em silêncio: “Ajude-me!” Se tocasse Ekhatherina ou tentasse tirá-la de Chris­topher, tornaria a situação ainda pior. Mary Hellen sabia disso. Decidiu, portanto, que até mesmo dirigir-se à me­nina quando estava tão incomodada era uma atitude er­rada. Por isso, decidiu concentrar-se em Christopher. Se pudesse acalmá-lo, talvez Ekhatherina também ficasse mais tranquila.
Sente-se — falou baixinho a Christopher, apontando para uma cadeira velha e gasta.
Não posso.
Indicou para a garota, Ninava-a para tentar acalmá-la. Mary Hellen sentia que a ansiedade dele impedia-o de perceber o vigor com que sacudia Ekhatherina.
—        Você pode e vai se sentar. — Puxou-o pela manga da camisa, aproximando-o da cadeira,
Christopher obedeceu e pareceu mais calmo. Mas as lágrimas de Ekhatherina não cessavam.
O que eu faço, Mary Hellen? Fale-me como fazer com que ela pare com isso. Já está chorando há mais ou menos trinta minutos. Acabará ficando doente.
Parece cansada...
Ambos estamos exaustos.
Christopher apresentava olheiras, e o queixo, a barba por fazer. Mary Hellen lembrou-se de como aquela pele estivera limpa, quando ficaram lado a lado e...
"Pare!", ordenou-se.
—        Eu temo ter cometido um grande erro. — Chris­topher era a personificação da insegurança.
O coração de Mary Hellen se contraiu. Estendeu a mão e tocou-o no braço, de leve, tomando cuidado para não encostar em Ekhatherina.
  Eu queria apenas dar uma boa vida para minha filha, Mary Hellen. Torná-la feliz. Mas como poderei fazer isso se nem mesmo sei o que ela quer?
  Você se sairá bem, Christopher. Não pode esperar que cada minuto seja um mar de rosas. Ainda mais no princípio. Ekhatherina precisa habituar-se a você.
  Mas nós nos demos bem esta tarde.
Os três ficaram sentados por um momento, Christopher buscando apoio em Mary Hellen, e ela, por sua vez, tentando confortá-lo e a Ekhatherina. A menina ainda soluçava.
Então, a garotinha fez algo extraordinário. Pressionou a pequenina palma na face de Christopher e fitou-o direto nos olhos. Por uma fração de segundo, o ambiente ficou em absoluta quietude.
—        Pisne.
Christopher encarou Mary Hellen.
—        É isso! — disse ele. — Foi o que falou sem parar até agora há pouco. O que Ekhatherina quer?
Mary Hellen achou graça.
  Está pedindo música. Deseja que você cante para ela. Quem a colocava na cama no orfanato devia cantar para as crianças adormecerem.
  Cantar? Mas eu não sei cantar.
— Claro que sabe! — Mary Hellen encorajou-o. — Deve recordar algumas canções simples de sua infância.
Christopher franziu a testa.
—        O que acha da música do alfabeto, Christopher? Todos conhecem essa. Decerto foi como você aprendeu as letras.
Christopher parecia cético, mas começou a cantarolar, assim mesmo, a voz bem baixa mas aveludada.
Ekhatherina acalmou-se, soluçou mais uma ou duas vezes e aconchegou-se no peito forte. Em seguida, colocou o polegar na boca.
A visão daquele homem alto e musculoso ninando a garotinha e cantando com suavidade emocionou muito Mary Hellen.
A cena era linda. Cheia de amor... tão serena!
Não esperara ver Christopher de novo. O contato que antecipara teria sido através do telefone ou por corres­pondência, assim que ele retornasse aos Estados Unidos.
Mas ali estava, com seus ombros largos e a gloriosa formosura, o que bastava para fazer o pulso de Mary Hellen disparar.
Antes que ele terminasse de repetir o segundo verso da canção, a filha já adormecera como um anjo. Chris­topher terminou a estrofe, incapaz de se desviar do sem­blante tranquilo de Ekhatherina. Enfim, exalou um sus­piro, parecendo aliviadíssimo.
Ele e Mary Hellen ficaram quietos por alguns momen­tos, ouvindo o respirar compassado de Ekhatherina.
Os olhos castanhos dele tinham expressão tão intensa ao fixarem-se em Mary Hellen quanto naquele começo de tarde, pouco antes de se despedirem. Ela tentou su­primir o arrepio que subiu por sua espinha.
Por fim, Christopher sussurrou:
  Obrigado. Mais uma vez.
  Quando precisar...
A seriedade na expressão de Christopher não se suavizava.
Não faça com que a situação pareça casual, Mary Hellen. Se você não estivesse aqui para me auxiliar e me dizer do que minha filha precisava, não sei o que eu teria feito.
  Não foi nada...
  Pare com isso!
Ekhatherina se mexeu e os dois ficaram imóveis. Mas o olhar intenso de Christopher não deixava o rosto de Mary Hellen, que, afinal, ficou tão desconcertada que teve de romper o contato visual. Em seguida, Mary Hellen ergueu o rosto, submetendo-se à expressão solene de Christopher.
           — Está bem. Por nada.
Ele nada respondeu, continuando a analisá-la, Mary Hellen sentia vontade de se mexer, mas nada fez.
           — Você teria se saído bem, Christopher, sabe disso. Acabaria descobrindo o que era, e em pouco tempo — argumentou, ainda muito encabulada.
            — Em pouco tempo... — ele repetiu. Christopher pareceu ponderar sobre algo. Mary Hellen adoraria poder ler seus pensamentos.
           — Sim, Christopher, você...
           — Tenho certeza de que eu me sairia bem. E a tempo. Mary Hellen sorriu. Gostava de sua autoconfiança.
Achava-a muito sedutora, como tudo o mais nele.
A observação a conteve no meio da conjectura. Seu sorriso esmoreceu. Precisava parar com aquilo. O melhor a fazer era ignorar o que sentia por Christopher Kimball.
           — Ótimo. Fico feliz por você estar vendo a situação a minha maneira.
           — Mas, até eu ser capaz de perceber as necessidades de Ekhatherina, precisarei de você, Mary Hellen.
            Como?
          — Sugiro que passe a trabalhar para mim. Proponho que viaje para casa comigo e Ekhatherina amanhã. Gos­taria que estivesse ali para ajudar-me a compreender minha filha. Desejo que a ensine a me entender. A com­preender a língua inglesa, quero dizer. Mary Hellen franziu o cenho.
—        Christopher, você não precisa de mim para isso. Ekhatherina é apenas um bebê. Crianças nessa idade aprendem rápido um novo idioma.
—        Você não tem emprego. Deixe que eu lhe proporcione um. Poderá ser babá de Ekhatherina. Sua governanta, professora... Minha professora. Chame a si mesma do
modo como preferir, mas venha trabalhar para mim. Nós precisamos de você.
Mary Hellen sentiu o coração se apertar e a boca ficar seca.
"Não, Mary Hellen", uma voz interna advertiu-a. "Nem mesmo considere a possibilidade."
Nada havia para ela nos Estados Unidos. Por esse motivo, viajava por outros países desde que se formara.
Você nem mesmo me conhece, Christopher.
Sei que foi capaz de deixar de lado os próprios in­teresses durante dois dias para realizar o sonho de um completo estranho. Você é uma boa pessoa. Honesta, fiel a sua palavra. Isso me basta, no momento.
Mas...
Mary Hellen...
O apelo e desespero contidos na entonação de Chris­topher e em seu semblante silenciaram os protestos que ela esteve prestes a proferir.
—        Mary Hellen... eu preciso de você!

CAPÍTULO V

Não há nada para você na América. Mary Hellen. Nada. Foi por isso que...
"Mas Christopher estará lá, E Ekhatherina, E eles precisam de você."
"Não pode envolver-se com isso, Mary Hellen. Não tem dinheiro para viajar aos Estados Unidos. Não tem con­dições monetárias nem emocionais."
Mary Hellen franziu a testa, ainda não entendendo direito as implicações da proposta inesperada.
No entanto, antes que pudesse fazer um exame mais profundo, outras idéias empurraram para o lado as pers­pectivas sombrias,
"Olhe para Christopher, garota. Ele ama aquela crian­ça Quer que sua garotinha o aceite. Deseja que os dois se tornem uma família. Como pode negar-lhes ajuda?"
"E fácil, basta dizer não!, seu lado racional ordenava. "Não se permita envolver-se..."
"Mas eles precisam de você!"
Naquele momento, Ekhatherina se mexeu. E Mary Hellen observou Christopher erguendo sua grande e forte mão num gesto automático para acariciar com delica­deza e afeto as costas da menina, confortando-a, ninando-a para que se sentisse segura.
Jamais Mary Hellen vira um homem mostrando tamanha ternura e amor incondicional. Nunca alguém me­receu mais a realização de seu grande desejo de ser pai.
Mary Hellen estava atônita em constatar que a fasci­nação por Christopher, a qual imaginou ter reprimido com sucesso, mais uma vez aflorava, faminta, ameaçando dominá-la por completo.
E junto com o encanto vinha o vago temor que expe­rimentara antes, também. Algo obscuro e confuso.
Engoliu em seco, tentando se controlar.
Não, de jeito nenhum! O que sentia não era atração. A emoção que deixava seus joelhos bambos relacionava-se ao que ela sentia por Ekhatherina.
Ora, isso era a mais deslavada mentira. Mas Mary Hellen não se importava muito com a verdade absoluta.
Ekhatherina tinha a melhor chance de sua existência ali, a consciência de Mary Hellen argumentava, com tei­mosia. Aquela menininha poderia ter uma família, um pai que a queria, adorava-a, importava-se com ela.
E Mary Hellen poderia, mais uma vez, ajudar para que isso se concretizasse.
Pelo bem de Ekhatherina, repetiu-se, as palavras ecoando em sua mente. Então, assentindo, Mary Hellen encarou Christopher, determinada, e afirmou:
—        Está bem. Voltarei à América do Norte com vocês.
O Aeroporto da Filadélfia estava apinhado. Mary Hel­len e Christopher, com a filha nos braços, abriam caminho rumo ao desembarque das bagagens.
Os três acabaram ficando em Kyreznóvia por mais um dia para que Mary Hellen pudesse empacotar os perten­ces, fechar a conta bancária e colocar tudo em ordem.
—        Sou uma viajante nata, Christopher — dissera. — Quando criança, nunca ficava por muito tempo em um lugar só. E minha atividade profissional levou-me por toda a Europa.
A posse de muitos objetos não era condizente com seu estilo. Os poucos itens que não pôde embrulhar foram doados à vizinha Antonetta, que ficou muito feliz.
  Fico surpresa por você confugir guardar tudo o que é seu em duas malas, Mary Hellen.
  E uma mochila — acrescentara ela.
Christopher rira, balançara de leve a cabeça e mur­murara algo sobre nunca ter conhecido alguém assim. Bem, isso era bom, Mary Hellen lembrou-se de ter pen­sado na ocasião, porque também nunca conhecera nin­guém como Christopher.
Ele se pusera a entreter Ekhatherina durante o longo vôo. Brincara com a menina o tempo todo, inventando jogos e passatempos. Quando, enfim, Ekhatherina ficou cansada, Christopher cantou baixinho para ela em tom monótono, o que fez com que os passageiros das proxi­midades lhe lançassem olhares estranhos, mas as canções apenas fizeram Mary Hellen sorrir, encantada.
Parecia ter se formado um novo vínculo dela com Chris­topher desde que concordou em voltar aos Estados Uni­dos. Como se, tendo Mary Hellen a seu lado para facilitar seu período de adaptação à paternidade, Christopher ti­vesse reunido a confiança necessária para realizar a con­tento seu desejo de ser um bom pai para Ekhatherina.
A constatação de que ajudava-o a ter mais fé em si mesmo era maravilhosa. Aquecia Mary Hellen por dentro.
Fazia parte de seu trabalho como professora transmitir coragem e fazer com que as pessoas se sentissem capazes de fazer o que almejavam.
Aprendera que ao incentivar os alunos com retornos estimulantes, aumentava-lhes a autoconfiança e deixava-os mais animados com o aprendizado.
Encorajar Christopher fora fácil. Era tão óbvio que ele amava Ekhatherina e queria ser o melhor papai do mundo!
Entretanto, Mary Hellen não queria que Christopher dependesse demais dela. Por isso, fora explícita ao dizer que não poderia permanecer na Filadélfia durante muito tempo. Um mês ou dois, no máximo.
—        De quatro a oito semanas — Christopher murmu­rara. — Acho que a srta. Ekhatherina e eu poderemos desenvolver uma grande amizade nesse curto espaço.
Quando chegaram à esteira de bagagens, Christopher estendeu para Mary Hellen a filha adormecida para que pudesse pegar as malas.
Logo viram-se em uma limusine que Christopher con­tratou no próprio aeroporto, e dirigiram-se para a resi­dência dele.
  Você trabalha na Filadélfia? — Mary Hellen quis saber, percebendo que eonhecia muito pouco acerca do homem com quem se casou.
  Na verdade, trabalho em casa. Não fica muito dis­tante do perímetro urbano.
O céu adquiria diversos tons de vermelho, conforme o sol se punha no horizonte.
  Elaboro sistemas de computação sob encomenda para variados ramos de negócios, Mary Hellen. A tecno­logia muda a cada dia, o que cria uma demanda muito alta por tarefas como as que desempenho. Crie atualizei sistemas para empresas por todo o país e planejo entrar no mercado externo em breve.
  Parece que você viaja muito.
  Não. Com a correspondência eletrônica da internet, onde se anexam documentos, as máquinas de fax o bom e velho telefone, pouco tenho de sair do meu escritório. A tecnologia é maravilhosa. E minha mais nova aliada uma câmera de vídeo acoplada ao monitor de meu computador. Posso participar de conferências e reuniões com clientes sem deixar minha cadeira. Claro, vez ou outra, uma emer­gência força-me a viajar. Mas são ocasiões raras.
  Entendo.
  Cono desempenho minhas funções em meu próprio lar, tenho o ambiente perfeito para ser um papai muito presente para Ekhatherina.
Christopher sorriu, os dentes alvos tornando-o ainda mais belo.
Mary Hellen perdeu o fôlego. Uma estranha espécie de calor começava a surgir dentro dela.
Olhou janela afora, para a paisagem por que passavam. Precisava de alguns momentos para lidar com as chamas do desejo.
—        Um papai que fica bastante em casa, é? Pois acho que você está criando uma boa frase para o novo milênio.
Christopher riu, o som agradável vibrando no confinamento do automóvel luxuoso. Mary Hellen ficou apreensiva ao experimentar mais uma pontada de volú­pia. Para seu alívio, Ekhatherina escolheu aquele mo­mento para despertar.
A criança abriu os lindos olhos escuros, piscou algumas vezes fazendo careta e suspirou. De imediato sentou-se no colo de Christopher.
—        Vejam só quem acordou! — Christopher acariciou o rostinho muito delicado. — Sua soneca foi tão longa, querida. Estou com medo de que não durma esta noite.
Mary Hellen sentiu-se grata por a atenção dele estar focada em Ekhatherina. Precisava desesperadamente apagar a sensação de sensualidade.
Ele prosseguiu, falando com a menina:
—        Está tudo bem, porém, vamos estabelecer uma ro­tina, logo, logo.
A ternura em seu tom de voz ao falar com Ekhatherina despertou outra emoção inesperada em Mary Hellen. Sen­tiu que estava prestes a chorar, e por isso, com rapidez, virou-se para o vidro.
O que havia de errado com ela? Primeiro, viu-se forçada a lutar contra uma atração crescente por Christopher, e agora o simples fato de ouvi-lo deixava-a tão emocionada.
Talvez estivesse apenas cansada da longa viagem.
O motorista entrou em uma rua estreita e asfaltada.
—        Chegamos — disse Christopher. — Olhe, Ekhatherina. Estamos em nosso lar.
Mary Hellen evitou fitá-lo para não deixá-lo ver suas lágrimas, mas conseguiu sorrir. Suspirou, aliviada. Es­tava exausta, só podia ser isso. A fadiga a dominava e a deixava sensível.
A casa de Christopher era uma bela construção em estilo colonial, erguida a tamanha distância da rua que de lá não se poderiam ver ou ouvir sinais do tráfego esparso.
Mesmo no lusco-fusco, Mary Hellen tentava decifrar os contornos conforme se aproximavam.
—        Vizinhos? — indagou, curiosa.
Christopher desceu, ajeitou Ekhatherina no quadril e pediu ao motorista que pusesse a bagagem na varanda, diante da porta. Então, acompanhou a direção do olhar de Mary Hellen.
—        Não. Ali é o curral. Tenho dois cavalos. Minha pro­priedade faz divisa com um parque estadual, por isso posso cavalgar... se eu me levantar bem cedo. Não gosto de in­comodar as pessoas que caminham. Tenho uma gata em algum lugar por aqui, também. Chunky só aparece quando está com fome. Contratei um homem para cuidar dos ani­mais e de tudo o mais. Dessa maneira, fico livre para tra­balhar. Bob vem todos os dias. Não fosse por ele, eu nem teria ficado na Kyreznóvia durante todo aquele tempo. Te­nho certeza de que Bob cuidou bem de meus animais.
Dois cavalos, pensou Mary Hellen. Aquilo mais parecia um sítio do que uma mera casa. E o fato de ser adjacente a um parque aumentava o valor das terras.
A limusine que Christopher contratara, com os macios bancos de couro e o motorista circunspecto, era o veículo mais opulento no qual Mary Hellen já andara.
O negócio de Christopher devia ter muito sucesso para permitir-lhe morar a cerca de trinta minutos do limite urbano de uma cidade de tamanho razoável, considerou, estudando ao redor.
Christopher observou o gramado enquanto o carro era estacionado.
—        A grama parece em bom estado. Eu sabia que podia contar com Bob para o que desse e viesse.
Estendeu a mão para pegar uma das sacolas de Mary Hellen.
—        Poderia segurar Ekhatherina? Ou prefere uma das malas?
Ela sorriu, embora duvidasse de que Christopher pu­desse vê-la na penumbra.
—        Levarei Ekhatherina e uma mala. E, por favor, não escolha aquela mais pesada para mim.
Christopher conduziu-a para dentro, e depois para a escada, rumo aos quartos.
Você ficará com o dormitório do fim do corredor, Mary Hellen.
O importante é: em qual quarto Ekhatherina ficará?
Ah... — Christopher colocou no chão a bagagem que carregava e apontou. — Bem aqui. O local está pronto e esperando por ela há semanas.
O aposento era tão bonito quanto Mary Hellen previra, decorado com motivos infantis. Em uma das paredes ha­via o desenho de uma aranha com o semblante muito alegre em meio a sua teia. Outros personagens muito bem desenhados enfeitavam o ambiente.
O piso tinha um carpete macio em tom de azul, e a mobília era branca. A janela mostrava contorno cor-de-rosa. Um pequeno armário para brinquedos estava a um canto.
Christopher idealizara um lugar perfeito para sua ga­rotinha, e Mary Hellen foi rápida em dizer-lhe isso.
—        Não posso aceitar os elogios. — Christopher tomou Ekhatherina dos braços de Mary Hellen e colocou-a no chão. — Um decorador veio e fez a maior parte do serviço. Mas comprei os brinquedos.
Ekhatherina foi direto para a cadeira de balanço e, com um único toque, fez com que se movesse. Viu-a, atônita, se mexendo, e virou o rostinho adorável primeiro para Christopher, depois para Mary Hellen.
Ambos acharam graça diante de sua estranheza. E gar­galharam quando Ekhatherina tentou galgar o assento, mas a lei da gravidade a fez cair sentada no carpete. Um instante de tensão nublou seus olhinhos ao fitar Christopher.
—        Você está bem, querida. Não se preocupe. Não de­morará a aprender a subir aí. — Aproximou-se e tomou-lhe a pequenina mão. — Vamos mostrar a Mary Hellen onde fica o quarto dela.
Embora a criança não o compreendesse, curvou os de­dinhos ao redor da mão de Christopher. A caminho da porta, ele pegou a mala mais pesada com a mão livre e se pôs a caminhar.
  Você e Ekhatherina dividirão um banheiro, Mary Hellen.
  Não será problema. Eu dividia um com um andar inteiro de famílias. Sou perita em tomar banho em apenas cinco minutos.
  Bem, não haverá necessidade disso por aqui. — Christopher entrou nos aposentos dela, pousou a mala no chão e acendeu a luz. — Há bastante água quente, suficiente até mesmo para um longo banho na banheira. Todos os dias, se você quiser.
Só de imaginar-se num banho quente Mary Hellen gemeu de satisfação.
—        Não faz idéia do quão maravilhoso isso soa.
Quando ela abriu os olhos, achou ter visto uma ex­pressão diferente em Christopher. Contudo, bastou um segundo olhar para a impressão desaparecer.
Mary Hellen observou ao redor do quarto decorado em tons de verde-claro e creme.
  Bonito! Lindo, na verdade!
  Espero que fique confortável.
O tom rude de Christopher a espantou. Virou-se para ele, que já se ocupara em pegar Ekhatherina no colo e ajeitar seu vestido.
O que havia feito ou dito para causar aquela mudança em Christopher? O que gerou a estranheza que pairava no ar.
—        Estou certa de que ficarei muito bem.
Christopher foi para a saída
  Então, instale-se, Mary Hellen. Levarei Ekhathe­rina para a cozinha e verei se posso preparar algo para comermos. Não deve haver muita coisa na geladeira. Fi­quei ausente durante um bom tempo... Decerto teremos de nos contentar com biscoitos e sopa.
   Eu não me importo em cozinhar,
  Não — Christopher interrompeu-a com firmeza, nem se importando em virar-se para ela. — Desça depois que tiver desfeito a bagagem
Mary Hellen sentia uma grande confusão a envolvê-la junto com o frio proporcionado pelo aparelho de ar-condicionado.
Por que aquela tensão repentina?, perguntava-se.
Tolice, pensou. Talvez estivesse imaginando coisas. Christopher devia estar tão cansado quanto ela. Afinal, a viagem fora longa.
Colocou a bolsa sobre a colcha. O carpete e as paredes do aposento eram do mesmo tom suave de verde. As cortinas combinavam com a coberta do leito.
Calmaria. Serenidade. Era o que pairava naquele ambiente.
Mary Hellen suspeitava que Christopher fizera com que o cômodo fosse decorado por um profissional também, assim como o de Ekhatherina. A elegância contida na simplicidade era inegável.
Tirou da pequena mochila a escova de cabelos e o pente, colocando-os na cômoda. Mirou-se no espelho. As longas horas de Kyreznóvia para os Estados Unidos deixavam suas marcas em sua expressão. A maquiagem borrara, os fios se encontravam em desalinho.
Em vez de desfazer a bagagem, Mary Hellen achou melhor ir ao banheiro refrescar-se. Nunca fora vaidosa, e por esse motivo não entendia direito a súbita urgência em melhorar a aparência. Entretanto, decerto relacionava-se a Christopher, que a aguardava no andar térreo.
Mary Hellen desceu os degraus, usando o olfato para guiá-la até a cozinha. Lavara o rosto, escovara os dentes e se penteara. E retocara a pintura. Os poucos minutos que passara no banheiro foram suficientes para que se sentisse renovada.
Entrou na cozinha, e logo deparou com as costas largas de Christopher. Os músculos dos ombros flexionavam e relaxavam enquanto ele lidava no fogão. Os movimentos eram hipnotizantes. A pulsação de Mary Hellen acelerou.
Obrigou-se a respirar com vagar. Baixou as pestanas, na tentativa extrema de conter-se.
Desesperada por encontrar algo mais em que se concen­trar, observou ao redor. Tudo ali era impecável, com seus armários brancos e utensílios cromados. Um local espaçoso, no estilo típico das casas de fazenda, arejada e espaçosa.
Enfim, quando sua pulsação voltou à normalidade, Mary Hellen deu mais alguns passos.
Omelete — disse ela, sorrindo ao ver Christopher colocar os ovos mexidos na panela.
Sim. Não havia sopa nas prateleiras. Espero que goste de ovos. É tudo o que temos. Precisarei ir ao mer­cado amanhã.
Estou com tanta fome que seria capaz de comer qualquer coisa.
Mary Hellen estava feliz por Christopher parecer mais relaxado do que momentos atrás, e também por ter con­seguido dominar as emoções que tomaram-na no instante em que o avistou ali dentro.
A torradeira fez seu barulho característico, e Mary Hellen, no mesmo instante, foi pegar as fatias torradas.
—        Encontrei um pacote de pão no congelador — ele falou. — Há manteiga na geladeira.
Passaram os momentos seguintes preparando uma re­feição simples. Ekhatherina comia as uvas-passas que Christopher colocara na bandeja de seu cadeirão.
Hum! — Mary Hellen sentou-se à mesa ao mesmo tempo que ele. — Está delicioso, Christopher. Leve e saboroso.
Eu misturo uma colher de chá de água aos ovos para que fiquem umedecidos.
E o queijo? — murmurou, saboreando o gosto agradável.
Tipo suíço. Tive de cortar as partes ressecadas. Pa­rece que você nunca tinha experimentado...
Faz anos que não como. Os queijos disponíveis na Eu­ropa em sua maioria são feitos com leite de ovelha ou de cabra. Mas não são parecidos com este aqui. É maravilhoso!
Christopher riu.
—        Ora, como é fácil satisfazê-la!
Percebendo o quão tola devia estar parecendo, Mary Hellen enrubesceu. Aí, começou a rir de si mesma. Deu de ombros e admitiu, com honestidade:
—        Eu me esqueci das coisas de que tinha saudade. — Levou à boca outra porção da omelete — Está mesmo fantástica.
Depois de devorar a última porção com o restante das torradas, Mary Hellen quis saber:
  Por que não deixa que eu limpe tudo? Olharei Ekhatherina, e você poderá tomar um banho.
  Acho que aceitarei sua oferta. Mas antes darei uma olhada nos cavalos, tentarei achar a gata, e só depois vou me banhar.
Mais tarde, depois que Ekhatherina já usava seu pi­jama, os três se sentaram no chão do quarto da criança.
Haviam apanhado blocos de madeira que Christopher comprara semanas antes, e ele e Mary Hellen montavam torres para que Ekhatherina se deliciasse em derrubá-las. Em breve, entretanto, a menina passou a fazer as próprias construções.
  Christopher, agora que você tem Ekhatherina em casa, que tal fazer uma festa para apresentá-la a sua família e seus amigos? Eu ficaria feliz em colaborar.
  Não é preciso isso. Mary Hellen. Não tenho parentes. Bem, refiro-me à família próxima. Era filho único, e meus pais morreram em um acidente de carro, oito anos atrás.
—        Oh, Christopher! Sinto muito...
Ele esboçou um sorriso doce.
—        E as amizades que tenho fiz por intermédio dos negócios. Estão espalhados pele país. e não somos pró­ximos o bastante para uma celebração tão pessoal. Além disso, me comunico com a maioria através de correspon­dência eletrônica.
Como devia ser solitário!, pensou Mary Hellen. Não tinha familiares, amigos próximos, nem mesmo uma na­morada... uma pessoa com a qual pudesse contar durante essa nova fase de sua existência. Alguém a quem confi­denciar as dúvidas, os temores, triunfos e as alegrias.
  Sendo assim, não precisa notificar ninguém a res­peito da chegada de Ekhatherina? Não há alguém com quem queira celebrar?
  Não sinta pena de mim, Mary Hellen. Minha vida é tão plena quanto quero que seja. Tenho meu trabalho, meus cavalos, minha gata. — Ele sorriu. — E agora, uma filha. Meu mundo expandiu-se muito bem, se quer saber minha opinião.
"Mas você precisa de alguém, Christopher. Deveria ter uma companheira, uma pessoa adulta. Uma mulher... Uma esposa!"
Constatando a própria posição, o pensamento logo precisou de uma correção. "Uma de verdade, quero dizer. Alguém que esteja por perto para ajudá-lo a criar Ekhatherina."
Mas Mary Hellen era a esposa dele. Por enquanto, pelo menos. Uma esposa temporária. Seu jeito nômade não permitiria nada além disso.
Porém, assim que o matrimônio fosse anulado, Chris­topher devia tentar encontrar uma garota que pudesse ajudá-lo, de preferência para sempre, a montar um lar feliz para Ekhatherina.
Seria o melhor. Para Ekhatherina e para Christopher.
Mary Hellen queria dizer-lhe tudo isso. Gostaria de discutir seu ponto de vista quanto ao isolamento em que ele vivia. Christopher poderia achar que seu mundo era amplo o bastante; pleno. Mas Mary Hellen não via assim.
No entanto, não poderia revelar o que lhe ia em mente. Afinal, não o conhecia bem o bastante. Não sabia como Christopher reagiria diante de um conselho não solicitado.
Teria de esperar um pouco até conhecê-lo melhor.
Horas mais tarde, Mary Hellen estava deitada na cama, fitando o teto, com o quarto às escuras.
A exaustão fizera com que bocejasse no dormitório de Ekhatherina, e Christopher sugerira que fosse dormir.
Ele achava que Ekhatherina ficaria acordada até tarde por causa da longa soneca que tirara durante o vôo.
Quando Mary Hellen ponderou que ele devia estar tão cansado quanto ela, e então se oferecera para ficar com o bebê, Christopher, com gentileza, rejeitara a idéia.
Era o pai da menina, agora, lembrou-a com orgulho. Precisava habituar-se a longas vigílias, conforme todos os outros pais eram forçados a suportar.
Na verdade, parecia até ansioso pela experiência, Mary Hellen notou. Por isso, aceitara a sugestão. Entretanto, uma vez ali, não conseguia conciliar o sono, embora es­tivesse cansadíssima.
Tentou ler e ouvir música no rádio, mas nada adiantou.
Após o que pareceu serem horas, virando-se de um lado para o outro, acabou se levantando e foi para a porta. O que precisava, decidiu ao girar a maçaneta, era de um copo de água gelada. Iria para a cozinha.
O luar invadiu o corredor através da clarabóia, lan­çando sombras fantasmagóricas. Mary Hellen avistou uma forma à soleira dos aposentos de Ekhatherina e percebeu que era Christopher.
  Ela adormeceu? — Mary Hellen sussurrou, a escu­ridão fazendo-a mover-se para mais perto do que seria seguro para poder ver-lhe o rosto.
  Parece um anjinho naquele berço...
  Ela é um anjo, Christopher.
  Meu anjo. — Ele falou como que para si, e pousou o olhar intenso em Mary Hellen.
Em silêncio, pôs-se a fitá-la na penumbra durante se­gundos. Estendeu o braço e tocou-lhe o queixo.
—        E ela está comigo por sua causa.
Os dedos eram quentes contra a pele dela. O coração de Mary Hellen disparou, mais uma vez. Analisou Christopher. Quis afastar-se dele, mas não pôde. Estava perdida.
— Eu estava lá, ninando Ekhatherina... — Christopher falava com suavidade, os dedos escorregando pela face de Mary Hellen — ...e tudo o que ocorreu foi repassado em minha memória. Devo-lhe tanto! Nunca serei capaz de pa­gar. Gostaria de poder demonstrar toda minha gratidão.
A quietude que se seguiu era tão extrema e penetrante como Mary Hellen jamais sonhara ser possível. Algo es­tava prestes a acontecer, não tinha dúvida.
Algo maravilhoso.
Ou terrível. Não sabia ao certo.
O momento pareceu congelado no tempo. Ela sabia apenas que estava presa em uma armadilha, incapaz de falar ou mover-se, enquanto esperava por alguma coisa que não compreendia direito.
Christopher se moveu. Não para longe dela, mas na direção de Mary Hellen. E tudo o que ela pôde fazer foi baixar as pálpebras e prender a respiração.

CAPÍTULO VI

Calor. Era a única sensação que Mary Hellen conseguiu identificar quando a boca de Christopher pousou na sua de modo tão possessivo.
Então, pouco a pouco, outras percepções invadiram seu cérebro. O sabor daqueles lábios, da língua traçando o contorno dos dela...
Como se possuíssem vontade própria, os braços de Mary Hellen enlaçaram o pescoço de Christopher. Seus dedos mergulharam nos cabelos escuros da nuca, puxan­do a cabeça para bem perto.
O beijo tornou-se mais ardente, exigente, e Mary Hel­len permitiu a ele aprofundar-se ainda mais.
O desejo que a invadia era tão puro que parecia vir de sua própria alma. Agarrou-se a Christopher, os joelhos bambos. E a breve distância que percorreu apoiando-se no corpo forte mudou tudo, intensificando as sensações que ela experimentava, barrando todo seu raciocínio.
Podia apenas sentir as coxas fortes contra as suas, a massa sólida do tórax pressionando seus seios, as mãos em seu rosto e depois nas costas, o calor de Christopher penetrando pelo tecido de sua roupa.
Mary Hellen gemeu, envolvida em tanta volúpia.
Christopher falou. Algo sussurrado, meio sem fôlego, que excitou-a, embora não o tivesse escutado com clareza.
O que disse? Teria murmurado seu nome?
Piscou algumas vezes, e percebeu que ele afastara-se um pouco. Encarava-a, a expressão impenetrável.
Mary Hellen engoliu em seco e sentiu um arrepio. Ex­perimentou um medo tão intenso que mal foi capaz de suprimir um grito. Afastou-se, confusa e amedrontada.
—        Desculpe-me... — disse Christopher.
Mary Hellen fitava-o, quase em pânico. Sentia-se como um animal selvagem encurralado por um caçador expe­riente. Devia escapar.
—        Mary Hellen...
Por algum motivo desconhecido, o pesar que decifrou na voz de Christopher pareceu apenas aumentar o horror que sentia. Nem lhe deu oportunidade de dizer outra palavra. Girou nos calcanhares, correu para o quarto e fechou a porta.
O pêlo do cavalo parecia veludo. Mary Hellen afagou de leve o focinho preto do animal, sussurrando-lhe um cumprimento.
Fora ao estábulo com a intenção de dar uma olhada nos cavalos antes de entrar para preparar o desjejum. Entretanto, quando viu-se em pé ali, sua imaginação criou asas.
Já estava ali fazia tanto tempo que um dos animais aproximara-se, pressionando o focinho contra o portão, querendo mais carinho.
—        Mas que lindo menino!
O cavalo era negro. Seu pêlo magnífico brilhava ao sol matinal que entrava pelas amplas portas da cocheira. A musculatura era bem desenvolvida, e a cauda, tão longa que podia chegar ao chão.
Quando a enorme montaria aproximou-se pela primei­ra vez, Mary Hellen ficou hesitante. Mas fora um cumprimento. E o cavalo demonstrou satisfação quando ela começou a acarinhá-lo. Agora, bem confortável em sua companhia, estava tranquilo, e Mary Hellen, sossegada para deixar a mente vagando.
Como Christopher e ela acabaram se beijando, na vés­pera? Era a última coisa que pudera esperar.
Não, isso era mentira. Bem no instante final, soube que algo estava prestes a ocorrer. Mas um beijo? Fora uma surpresa.
Mas como ocorreu? Por que ficara tão apavorada? Por que tanto temor?
Já fora beijada antes. Tinha vinte e seis anos, afinal de contas. Namorara alguns rapazes... Não muitos, era verdade, mas o suficiente para não assustar-se mais. Já tivera sua boa parcela de beijos de boa-noite.
Então por que tanta ansiedade?
O assunto causava-lhe dor de cabeça. Ora, o medo que a engolfara, na ocasião, não importava, concluiu em si­lêncio, afugentando as conjecturas inquietantes.
Precisava manter seu relacionamento com Christopher em um nível platônico. A Europa era seu futuro. Tinha crianças a instruir. Portanto, não podia envolver-se.
Teria de dizer isso a Christopher, decidiu. Era neces­sário passar por cima das regras que criaram quando ela concordou em viajar para os Estados Unidos para tornar-se babá de Ekhatherina. Teria de deixar muito claras suas intenções.
— Bom dia!
Mary Hellen ficou petrificada por um segundo. Em seguida, num esforço, conseguiu virar-se, para ver Chris­topher em pé ao batente, a luz matinal muito forte emoldurando-o. Majestoso, adiantou-se, e o cavalo balançou a cabeça em óbvio reconhecimento.
Mary Hellen afastou-se da baia.
—        Olá — respondeu, sentindo um pouco de falta de ar. Christopher estendeu-lhe uma das xícaras de café fu­megante que trazia e observou-a inalando o aroma tentador.
Mary Hellen estava linda, com a luminosidade intensa acentuando o tom avermelhado dos cabelos. Christopher sentiu um calafrio. Sabia o que o atormentava: desejo. Sentira-o na noite anterior, quando Mary Hellen gemera de modo tão delicioso em resposta a sua sugestão de tomar um longo banho de imersão.
Aquele gemido evocara uma luxúria que ameaçara con­sumi-lo. Christopher procurara lutar contra aquela ne­cessidade. Porém, ao fazer isso, acabou sendo rude com Mary Hellen. Tinha certeza de que ela percebera.
Aquele beijo nunca devia ter acontecido, afirmou, pela milionésima vez. Nada de bom decorreria disso, a ne­nhum dos dois.
Por esse motivo estava ali. Viera pedir desculpa e pro­meter que seu comportamento tempestuoso não se repe­tiria. E, a contar pelo modo como Mary Hellen correra para o quarto, na véspera, estava certo de que ficaria feliz e aliviada em ouvir o que tinha a lhe dizer.
—        Obrigada.
Christopher observou-a tomando um gole.
  Vejo que você encontrou Pepper.
  Então esse é seu nome.
  Sim. Já se chamava assim quando o comprei. É um morgan.
Mary Hellen franziu a testa.
—        Morgan é uma raça originária de Massachusetts — explicou, Christopher, passando a palma pelo pescoço de Pepper. — Seus exemplares são reconhecidos com fa­cilidade por causa da cabeça curta e larga e o pescoço fino. Acho que, embora ele seja bastante independente,
é dócil o suficiente para passeios.
—        Quer dizer que Pepper tem boas maneiras, não é?
Christopher sorriu.
Com um nome como Pepper, que significa pimenta, você pode pensar que não. Mas é meigo e obediente.
E bonito.
"Não tão tanto quanto você, Mary Hellen." Christopher se aborreceu por não conseguir conter essas observações fora de hora.
Entretanto, afirmara dezenas de vezes, ao se virar de um lado para o outro na cama, que era natural que se sentisse fisicamente atraído por Mary Hellen.
Ela era uma belíssima ruiva. Um homem teria de ser frio como uma pedra para não julgá-la maravilhosa. Con­tudo, Christopher recusava-se a arruinar o arranjo que fizeram.
Mary Hellen deixara claro que não ficaria por ali, o que se adequava à perfeição aos propósitos de Christopher.
Mesmo que Mary Hellen não tivesse afirmado que pre­tendia ir para a Europa, ainda assim Christopher não gostaria de aproximar-se muito dela. Aquela jovem era muito simpática e boa de coração para ter a vida posta de cabeça para baixo pela bagagem emocional dele.
—        E quanto a este camarada aqui? — A pergunta de Mary Hellen chamou-lhe a atenção.
Viu-a na baia oposta do estábulo. Procurava fazer com que Blaze se aproximasse, mas o cavalo permanecia perto da parede mais distante da entrada.
Blaze é um tanto tímido. Mas se comportará melhor depois que se habituar a sua presença.
E de que raça ele é?
É um quarto de milha. O nome vem de um teste de qualidade estabelecido pelos criadores originais da Vir­gínia e relaciona-se à habilidade dos animais em correr por um quarto de milha.
Durante alguns segundos, Mary Hellen pareceu não saber o que dizer. Por fim, comentou:
Você conhece bastante acerca de seus bichinhos.
Nem tanto assim. Sei apenas que são criaturas gra­ciosas e belas. E isso me basta.
Sobreveio um silêncio desconfortável. Os dois beberam café, mas era evidente que sentiam-se perturbados.
Ekhatherina está dormindo, Christopher?
Sim.
Mary Hellen forçou-se a sorrir.
—        Mary Hellen, ouça... Quanto a ontem...
Ela desviou o olhar, parecendo inquieta.
—        Não sei o que deu em mim — prosseguiu Chris­topher. — Foi tudo culpa minha, e peço que me perdoe. Quero que você saiba que... que não vai se repetir. Preciso de sua ajuda. Ekhatherina também. Foi loucura eu ter feito o que fiz. Não quero estragar nosso acordo. Por isso, espero que aceite meu pedido de desculpas e a promessa de que aquilo não tornará a acontecer.
Não houve resposta imediata.
—        Tudo o que posso falar em minha defesa é que era tarde, e passamos o dia todo viajando... E então eu estava acordado com Ekhatherina... E muito cansado...
Mary Hellen fitou-o.
—        Ambos estávamos exaustos, Christopher.
Ele estranhou a melancolia que captou na voz de Mary Hellen.
  Você não tem nada de que se desculpar, Mary Hel­len. Sou o único culpado. Assumo plena responsabilidade. E sinto muito. Do fundo do coração.
  Mas... conforme disse, Christopher, não vai acon­tecer de novo.
Christopher assentiu, aliviado por notar que Mary Hellen também estava ansiosa por deixar o assunto no passado.
— Tem minha palavra de honra.
Ela esboçou um largo sorriso, então, e foi como se o astro-rei tivesse acabado de nascer no horizonte.
O ruído de Ekhatherina chorando veio da casa próxima.
  Parece que minha garotinha acordou. É melhor eu tirá-la da cama.
  Vou preparar torradas, Christopher. Contudo, devo admitir que preferiria cuidar de Ekhatherina. Eu sou a babá, você sabe... E devo fazer algo para justificar minha permanência.
Christopher ficou contente quando constatou que seu pedido de desculpas abrandara o clima pesado. Parecia que o relacionamento estava de volta ao eixo correto.
—        Já tem feito demais, Mary Hellen. Pressinto que Ekhatherina vá desejar conhecer muitas coisas em seu novo lar. Estou feliz por você estar aqui para me auxiliar a ensinar-lhe tudo.
Foram juntos para a residência, lado a lado, bem mais relaxados e leves.
Os dias daquela primeira semana passaram em uma rotina de paz. Christopher trabalhava até altas horas para aproveitar a maior parte do tempo com a filha.
Ligava o computador antes do nascer do sol e traba­lhava algumas horas até Ekhatherina acordar. Quando a criança tirava uma soneca, mais adiante, ele ia de novo para o escritório. Ou, caso o serviço exigisse sua atenção imediata, colocava a menina no chão do escritório para brincar com blocos coloridos ou outros brinquedos.
Durante o período em que Christopher necessitava se dedicar por completo aos afazeres, Mary Hellen oferecia-se para levar Ekhatherina a um passeio, para que não fosse perturbado. Mas Christopher não aceitava.
Seu argumento fora que a filha tinha de habituar-se à idéia de que o novo papai trabalhava em casa. Se dei­xasse Mary Hellen cuidar de Ekhatherina naquele mo­mento, o que faria quando ela tivesse de partir?
Não, dissera, era melhor para a menina ajustar-se ao padrão de brincar a seu lado quando ele precisava ficar ao computador. E Mary Hellen teve de concordar.
Claro, dissera-lhe Christopher, ela era mais do que bem-vinda a juntar-se às brincadeiras de Ekhatherina, e Mary Hellen com frequência fazia isso.
Ela havia conhecido Bob, o ajudante de Christopher na manutenção da propriedade. Era um homem de idade, muito gentil, que chegava todas as manhãs para alimen­tar e escovar os cavalos, cortar a grama ou ajeitar as floreiras. Sempre ia embora antes do meio-dia.
Mary Hellen descobriu ao longo da semana que seu horário mais solitário era durante a hora e meia em que Ekhatherina dormia.
Christopher sempre estava ocupado com seus afazeres, e Mary Hellen, portanto, era deixada sozinha. Então, lavava algumas roupas ou fazia longas caminhadas, lia livros e assistia à televisão.
A atmosfera amigável que desenvolveram era excelente, como devia ser. Riam, faziam as refeições e se dedicavam a Ekhatherina, nenhum dos dois tendo de preocupar-se com aquela complicação desconcertante chamada "atração".
Não que Mary Hellen julgasse Christopher menos atraente agora do que antes do beijo. Se afirmasse isso, estaria mentindo.
Christopher era muito bem-apessoado e inteligente... e amava com loucura a pequenina Ekhatherina. Esse era, a propósito, seu traço mais sedutor.
Quando Christopher ria por causa de alguma atitude da menina, Mary Hellen julgava-se diante do sorriso mais charmoso e irresistível do planeta.
Sim, precisava admitir que Christopher era o homem mais belo e másculo que conhecia. E ela sentia-se livre para assumir isso para si, por causa da promessa de Christopher.
Quando ele explicou que o beijo se devera ao fato de estar exausto, Mary Hellen lembrou-se de ter admitido que ambos estavam muito cansados.
Sim, tivera uma necessidade desesperada de explicar a própria participação ansiosa no evento passional. En­tretanto, o importante era que Christopher lhe garantira que aquilo não se repetiria.
Christopher não a beijou porque sentiu-se atraído por ela. Por algum motivo, ao saber disso, Mary Hellen viu-se livre para admirá-lo a distância, sem sofrer com a an­siedade e confusão.
Deliciava-se em observá-lo com Ekhatherina. Ou quando estava tão concentrado defronte ao computador nas horas em que ela e a menina se divertiam em silêncio no carpete.
Outra qualidade sua era cavalgar com maestria. Chris­topher era um cavaleiro magnífico, as coxas musculosas flexionando-se ao instigar Blaze a seguir adiante.
Mary Hellen sabia que o ajudava bastante. Aos catorze meses de vida, Ekhatherina não falava muitas palavras. Entretanto, adorava usar as poucas que conhecia, mostrando-se muito curiosa, inteligente e comunicativa.
Por essa razão, Mary Hellen estava feliz em ser capaz de interpretar o que a menina dizia. Em breve, esperava, Ekhatherina começaria a falar um pouco de inglês.
—        Ei...
A voz de Christopher a fez desviar os olhos da revista que esteve folheando.
—        Ekhatherina acordou, Mary Hellen. O que acha de irmos a um shopping center? Estamos enfurnados nesta casa por tempo demais!
Mary Hellen achou graça e deixou a revista de lado.
—        Eu adoraria! — Levantou-se, ajeitando as pregas da saia longa. — Não vou a um grande e glorioso shopping center desde que deixei os Estados Unidos!
Ekhatherina saboreava uma mamadeira com suco de maçã gelado.
Quando Christopher estacionou e desligou o motor, Mary Hellen ficou olhando para o belo prédio, e sentiu um arrepio de excitação.
Como a maioria das mulheres, adorava fazer compras. E não existia nada parecido com aquela construção nos pequenos países do leste europeu nos quais permaneceu nos últimos cinco anos. E, mesmo que houvesse, sua re­muneração módica não lhe permitiria extravagâncias.
O dinheiro era gasto com itens de primeira necessi­dade, como comida, aluguel e roupas. E as únicas peças que adquirira eram baratas, para substituir as que tornaram-se muito gastas.
Christopher ajeitou Ekhatherina em um carrinho de bebê. A criança olhava ao redor, parecendo maravilhada.
—        Cada experiência parece encantá-la — Christopher observou.
Mary Hellen assentiu.
  Uma boa parte desse comportamento relaciona-se à idade dela. Bebês costumam ser curiosos. Mas uma boa parcela, tenho certeza, advém do fato de, decerto, ter nascido em uma família pobre. Caso contrário, teria encontrado um lar com parentes quando os pais morre­ram. Ekhatherina nunca deve ter andado em um carro ou outro veículo motorizado. Tudo é novo para ela.
  É quase como se minha filha estivesse em um gran­de parque de diversões.
  Algo assim.
Adentraram o edifício refrescado pelos aparelhos de ar-condicionado, e Mary Hellen não pôde conter a alegria.
—        Você nem pode imaginar como isto tudo é fabuloso. — Seu olhar passeava pelas vitrines coloridas.
Havia uma loja de artigos eletrônicos vendendo compu­tadores, telefones e minúsculos rádios portáteis. Outra, rou­pas femininas. E aquela mais adiante, livros de todo tipo.
Havia também CDs e fitas cassete de todas as músicas imagináveis. E tratava-se apenas do que estava no campo de visão de quem acabava de entrar.
Mary Hellen mordeu o lábio ao contemplar algumas roupas coloridas.
O riso de Christopher chamou sua atenção.
—        Você parece uma criança pressionando o nariz no vidro de uma doceria.
Mary Hellen gargalhou.
Isso é o que eu chamo de uma comparação perfeita. Não faz idéia de como fazer compras por onde estive é diferente, Christopher.
Tem razão. Não posso imaginar. Sendo assim, conte-me.
Bem, a economia da maior parte dos países do bloco leste, onde eu estive dando aulas, está empobrecida. Fal­tam muitas mercadorias. Até pouco tempo atrás, as mu­lheres costuravam ou tricotavam as vestimentas. Algu­mas ainda fazem isso. E, com uma renda familiar que varia em torno de duzentos a trezentos dólares por mês, não há muito dinheiro para itens de luxo, como camisolas de cetim ou blusas de seda. Isso tudo nem mesmo é en­contrado por lá. Apenas tecidos fortes, duráveis. É isso o que as pessoas são forçadas a adquirir, o que elimina a diversão de fazer compras.
Compreendo...
—        E alguns itens muito necessários também podem ser dificílimos de serem encontrados, Christopher. Quando me mudei para Kyreznóvia, levei duas semanas in­teiras para encontrar uma pequena geladeira. E era de segunda mão.
  Nossa! Que coisa estranha para a realidade por aqui. Acho que sinto-me um tanto culpado por possuir tanto.
  Não se sinta. Você trabalha duro para ganhar o que ganha. Apenas demonstre gratidão por tudo o que pode ter.
—        Tentarei manter isso em mente.
Christopher, um tanto ausente, empurrava o carrinho de bebê para frente e para trás, para manter Ekhatherina tranquila.
Uma blusa de seda belíssima chamou a atenção de Mary Hellen, que suspirou.
—        Que linda!
  Vamos entrar — sugeriu Christopher. — Você po­derá experimentá-la.
  Oh, não! Não posso arcar com essa despesa.
  E daí? Desde quando isso impede uma mulher de experimentar coisas bonitas?
Mary Hellen teve de rir. Por fim, deu de ombros e sentiu um arrepio de antecipação diante da perspectiva de ter o tecido macio entre os dedos.
—        Está bem. Você está certo.
O tecido parecia mágico. Mary Hellen passou os braços pelas as mangas curtas e fechou os botões. Mirou-se no espelho. A cor era tão bela... Roupas como aquela não estavam disponíveis em Kyreznóvia.
Vestiu o short que complementava o traje, subiu o zíper e ajeitou o cinto de couro. Então, saiu do provador.
  Céus! — Christopher exclamou. — Está encantadora! Mary Hellen enrubesceu.
  Obrigada...
A vendedora ofereceu-lhe outra roupa coordenada para experimentar.
—        Não, muito agradecida. Estamos apenas nos divertindo.
Christopher arqueou as sobrancelhas.
—        Há algum motivo para não nos divertirmos um pou­co mais? — indagou, maroto.
Aquele homem era impossível, Mary Hellen decidiu.
—        Está bem — acabou capitulando.
Mary Hellen entrou quatro vezes no provador. Colocou dois shorts, um vestido azul-turquesa e uma saia preta com blusa azul combinando.
Christopher opinou sobre cada detalhe, e Mary Hellen mal conseguia conter a satisfação. A apreciação dele fazia-a sentir-se feminina. Bonita.
Logo após, deixou o provador usando os próprios trajes.
  Chega, Christopher! Ele limitou-se a rir.
  Embrulhe tudo — disse, categórico, à vendedora.

Não, Christopher! — Mary Hellen meneou a ca­beça. — Eu as vesti apenas por brincadeira. Foi o quem você disse!
E será ainda mais divertido se ganhá-las, não concorda?
Mas...
Deixe-me fazer isso por você, Mary Hellen. Eu quero. — E estendeu o cartão de crédito à moça do caixa para pagar pelas compras.
Antes de deixarem o shopping, Christopher comprara alguns programas de computador; uma despesa de ne­gócios, conforme chamara.
Ekhatherina ganhara uma roupa nova e um cachor­rinho dálmata de pelúcia, que a menina recusou-se a deixar que embrulhassem. Queria carregar o lindo pre­sente debaixo do braço.
Além dos trajes, Mary Hellen também ganhou um par de sandálias.
—        Mas são tão frágeis! — falara para Christopher quan­do ele insistira que ficasse com ela. — Não durarão muito.
Christopher dera de ombros.
—        Porém, estão na moda.
E os dois desataram a rir.
Entraram no automóvel de Christopher e afivelaram os cintos de segurança.
  O que acha de jantarmos, Mary Hellen? Ekhatherina deve estar faminta.
  Ótimo!
  Então, o que será? Comida indiana? Italiana? Fran­cesa? Esta cidade oferece tudo o que pudermos desejar.
Christopher conduziu o carro pelo tráfego, e Mary Hel­len ficou a observá-lo.
Devia perguntar? Será que Christopher ficaria abor­recido se lhe dissesse o que gostaria mesmo de comer?
  Bem, se você quer mesmo saber... Christopher olhou-a de soslaio.
  Quero, sim.
Mesmo assim, Mary Hellen hesitou. Afinal, criou coragem.
  Eu gostaria de um hambúrguer.
  Hambúrguer?!
  Pois é... Mas não qualquer um. Quero que seja de um fast-food.
  Você está brincando, não é?
  Não, Christopher. Não há nada como uma boa e velha comida engordurada de fast-food... Nem me lembro quanto tempo faz que não como.
Mary Hellen fez uma expressão sofredora, e Christo­pher gargalhou.
—        Está bem... Se é isso o que você deseja, é o que terá.
Depois que a última batata frita foi devorada e fo­ram consumidos os últimos goles de milk-shake, Chris­topher falou:
  Bem, acho que agora todos poderemos ir para casa bastante satisfeitos.
  Sou uma mulher com roupas novas, sapato novo, e devidamente abastecida de tudo o que há de melhor e mais cheio de calorias em um fast-food. Mas não acho que esteja na Filadélfia.
Christopher amassou os guardanapos de papel e colocou-os na bandeja.
  E onde acha que está? — indagou, bem-humorado.
  No paraíso.
Ele meneou a cabeça, um tanto triste.
—        Como é fácil satisfazê-la...
Mary Hellen sentia-se bem. Feliz até. Ela, Christopher e Ekhatherina passaram uma tarde maravilhosa, fazendo compras, comendo e rindo.
No trajeto para a residência, não pôde conter a sen­sação de que chegava o momento apropriado para con­versar com Christopher acerca de suas observações e dizer-lhe o que lhe ia no íntimo.
Christopher precisava de uma esposa, uma boa mulher que pudesse ajudá-lo a construir um lar para Ekhathe­rina. Alguém com quem dividisse a vida cotidiana.
Quando a idéia lhe ocorreu pela primeira vez, não achou que conhecia-o o suficiente para lhe dar conselhos. Mas uma semana inteira se passara, durante a qual par­tilharam todas as horas livres. E, após aqueles momentos adoráveis, talvez Christopher estivesse aberto ao comen­tário amigável.
Mary Hellen virou a cabeça e viu Ekhatherina mas­tigando a orelha de seu novo bichinho de pelúcia. Em seguida, olhou para o belo perfil de Christopher e prendeu a respiração por uma fração de segundo, enquanto decidia como abordar o assunto.
Não liavia um jeito adequado. Assim, era melhor ir direto ao assunto:
— Saae do que você precisa? — Sem dar a Christopher ím momento sequer para ponderar sobre a resposta, ela bem taxativa: — De uma esposa.

CAPÍTULO VII

— O quê? — Christopher arregalou os olhos. Mary Hellen tinha de admitir que ele parecia mesmo perplexo. Era óbvio que ouvira o que ela disse, mas pa­recia não saber de onde aquela sugestão fora tirada.
—        Bem, eu... — Sentiu-se insegura quanto à pertinên­cia de dar o conselho. Mas acabou repetindo: — Uma esposa. Mas de verdade. Uma mulher que...
A confusão na expressão de Christopher pareceu dissolver-se no mesmo instante.
—        Pois eu já tenho uma esposa, muito obrigado. — O tom de voz era muito agradável.
Brincalhão até, e Mary Hellen notou que quase sorria. Um pensamento lhe ocorreu. Talvez Christopher achasse que estava brincando.
—        Falo sério, Christopher.
Ele a fitou, de novo parecendo confuso. Então, voltou a atenção para a pista.
—        Tem uma vida muito solitária, Christopher. Seria bom para você e para Ekhatherina se tivesse alguém com quem contar e partilhar o dia-a-dia. Quer dizer... estou aqui agora. Rimos juntos das trapalhadas de Ekhatherina...
Mary Hellen observou o horizonte, rememorando a se­mana que passou.
—        Houve alguns momentos em que ela nos deixou apavorados porque não conseguíamos encontrá-la. E du­rante o tempo todo Ekhatherina esteve sentada dentro do armário, divertindo-se com seus sapatos.
Christopher gargalhou.
Ekhatherina havia alinhado todos os pares. Estava fazendo um trem.
E quando Ekhatherina viu Chunky pele primeira vez, gritou, muito alegre, e foi engatinhandc atrás da gata com a rapidez que suas perninhas permitiam.
E Chunky saiu correndo também. A pobrezinha não saiu de debaixo da poltrona durante horas.
Mary Hellen permitiu que o silêncio caísse entre os dois, durante alguns minutos.
Você terá milhares de acontecimentos desse tipo no decorrer do desenvolvimento de Ekhatherina. Deve ter alguém com quem dividi-los. Tem sido muito agra­dável para mim ser essa pessoa, contudo, está chegando a hora de eu partir. Precisará de alguém, Christopher.
Dividirei os momentos com Ekhatherina.
"Não é a mesma coisa", queria lhe dizer. Mary Hellen ficou imaginando se Christopher relutava em seguir seu raciocínio de propósito.
—        Você passará por algumas dificuldades, Christopher. Quando Ekhatherina entrar em contato com outras crian­ças, decerto se machucará um pouco. E poderá pegar resfriados e infecções de ouvido assim que o clima esfriar. Necessitará do apoio de uma esposa de verdade. Essa
seria a solução perfeita.
O riso leve que ele emitiu era forçado.
—        Acredite em mim, Mary Hellen, minha filha é a única mulher de que preciso junto de mim.
"Muito bem, seja fui tão longe assim, não retrocederei."
—        Você me falou que é um solteiro convicto, mas, para ser honesta, não achava que quisesse permanecer assim para sempre. Hoje em dia, tenho a impressão de que não pretende se envolver nunca.
Christopher adentrou a rua principal da vizinhança.
—        Eu lhe disse isso quando nos conhecemos.
Mary Hellen deu de ombros.
—        Sei disso. Mas imaginei que fosse porque você ainda não tivesse encontrado a mulher certa. Ou algo do gênero. No entanto, no decorrer das últimas semanas, ouvi certos comentários seus... os quais levaram-me a acreditar que pretende permanecer solteiro.
Mary Hellen sentia-se afundando em areia movediça, mas não conseguia deter-se.
Foi magoado no passado, Christopher? Ou melhor, você não tem de me contar se não quiser. Mas é terrível que não seja capaz de confiar em ninguém. Nem todas as mulheres...
Espere aí! — Ele virou o volante e direcionou o automóvel para o estacionamento de sua casa.
Mas Mary Hellen não se deixaria interromper:
...são diabólicas. Encontre alguém, Christopher. É preciso ter consigo uma moça que deseje ficar...
Está se oferecendo para a posição?
A pergunta inesperada causou-lhe imensa surpresa.
Claro que não! Não estou falando de mim, Chris­topher. Como pôde pensar isso? Não posso ficar aqui, você sabe muito bem. Refiro-me a Ekhatherina e ao novo papai dela. Vocês dois terão de...
Pare!
A única palavra foi dita em tom baixo, mas com firmeza.
—        Você interpretou tudo errado, Mary Hellen. Nin­guém me magoou. Ninguém feriu meus sentimentos ou arruinou meu ego. Tampouco arranhou meu orgulho.
Christopher estacionou, desligou o motor e desceu do veículo. Abriu a porta traseira e desafivelou o cinto de segurança de Ekhatherina.
Para Mary Hellen, estava claro que tentava controlar a raiva. Como uma situação tão simples saíra do controle?
Com Ekhatherina apoiada no quadril e um dos braços da menina enlaçando-lhe o pescoço, Christopher fitou Mary Hellen, que permanecia, atônita e imóvel, no as­sento do passageiro.
—        A despeito daquilo em que você possa acreditar, não houve uma mulher malvada que destruiu minha ca­pacidade de confiar nos seres humanos, Mary Hellen.
Christopher ajeitou a filha em uma posição mais se­gura em seus braços. Durante o tempo todo, a menina segurava com a mãozinha livre o cachorro de pelúcia.
—        Há muita gente que me desperta confiança. Creia em mim, Mary Hellen. Se não fosse assim, eu não teria confiado em você, que ajudou-me a conseguir o maior
tesouro do mundo.
Então, voltou-se para Ekhatherina.
—        Vamos, querida. É hora de você tomar um bom banho e aprontar-se para dormir.
Christopher fechou a porta do carro e foi na direção da residência, deixando Mary Hellen sentada sozinha no mais absoluto silêncio.
Observou-o desaparecendo casa adentro. Sentia-se fe­rida e colocada em seu devido lugar. E quisera apenas oferecer um conselho amigável... Por que suas boas in­tenções transformaram-se em algo ruim?
"Deixe para lá", sua voz interna aconselhou-a. "Não é de sua conta."
Era ótimo que Christopher não tivesse problemas em crer nas pessoas. Mary Hellen quase assentiu ao lembrar-se da firmeza dele ao fazer a afirmação. Falava a verdade, decidiu. E dera-lhe uma ampla prova disso. Se não confiasse nela, não teria permitido que ficasse perto de Ekhatherina.
Mas por que...
"Já disse para deixar para lá", a consciência repetiu o comando, dessa vez com mais autoridade.
Mas Mary Hellen via-se cada vez mais curiosa.
Christopher confirmara sua aversão a casamento e re­lacionamentos. Contudo, se a antipatia não fora causada por uma ex-namorada... o que houvera para que desen­volvesse aquele seu jeito peculiar de pensar? Por que era tão categórico ao excluir de vez a possibilidade do ma­trimônio e do amor?
Mary Hellen permaneceu onde estava por bastante tempo, deixando que as questões repletas de curiosidade tivessem livre curso em seu interior.
O perfume feminino e floral que sempre emanava de Mary Hellen invadiu o escritório de Christopher. Permeava o ar, abraçando-o, enchendo seus pulmões a cada aspirar.
Os dois trocaram poucas formalidades desde a noite em que Mary Hellen fizera aquele estranho comentário.
Uma esposa... Achava que ele precisava de uma esposa.
Christopher constatou, então, que Mary Hellen apenas resolvera fazer a sugestão porque importava-se com seu bem-estar e com o de Ekhatherina. Mary Hellen queria que a pequena família ficasse bem quando a deixasse em busca do novo local para dar aulas. E aí, após repassar a conversa e ponderar bem a respeito, Christopher com­preendeu que a motivação dela não fora nada egoísta.
Mas sua reação irada erigira uma parede entre os dois, que ambos achavam impossível destruir.
Christopher devia pedir desculpas por ter sido tão gros­seiro. Contudo, não conseguia tomar tão nobre atitude, porque isso o forçaria a explicar seu comportamento. E era algo que não se imaginava fazendo, de jeito nenhum.
Não gostaria de ter de contar a Mary Hellen a verdade acerca de suas razões para nunca pretender se casar.
Fitou o lugar onde ela e Ekhatherina estavam, sen­tadas sobre o carpete. Mary Hellen era uma linda mulher, com os cabelos ruivos caindo pelas costas e os olhos verdes adoráveis.
Estar no mesmo ambiente que ela era uma tortura. Ora, não era bem isso, emendou. Aliás, apenas pensar nela já o torturava. O corpo de curvas generosas, o aroma tão delicioso...
"Pare!", ordenou-se. Aquela idéia era insana. Se conti­nuasse naquele caminho, não teria condições de conter a vontade de beijá-la de novo. Prendeu o fôlego, suprimindo um protesto. A volúpia não podia tomar as rédeas da situação!
—        Olhe, Ekhatherina — Mary Hellen falou com sua­vidade. — Papai está nos observando desenhar.
Na verdade, era Mary Hellen quem fazia o esboço, elaborando formas coloridas e grandes, dando-lhes nomes em inglês, e assim tentando ensinar Ekhatherina.
O fato de tê-lo flagrado deixou Christopher envergonhado.
—        Isto é um círculo, querida — ela disse à menina. — Um grande círculo verde.
Então, Mary Hellen se virou para Christopher.
—        A palavra "círculo" é difícil de ser pronunciada. Po­rém, Ekhatherina estará falando inglês em breve.
Então era aquilo, Christopher constatou. A alegre mas forçada simpatia era como concreto e blocos. Um obstá­culo que Mary Hellen construíra para se proteger.
O olhar migrou dele para o papel, confirmando a Chris­topher a existência dessa barreira.
"Droga!" Detestava o clima tenso. Olhou sem ver para a tela do computador. Como poderia relaxar se era forçado a revelar...
—        Christopher?
Virou-se para deparar com o rosto de Mary Hellen. Algo em sua entonação deixou-o apreensivo. As íris verdes continham um toque de melancolia.
—        Sei que eu lhe falei que ficaria para ajudá-lo durante alguns meses, mas talvez fosse melhor que eu... — Sua voz faltou, e ela respirou fundo. Com maior determinação, prosseguiu: — Acho que já é hora de eu partir. Você e Ekhatherina estão se dando muito bem...
"...e a situação entre nós dois está tão estranha!", Christopher deduziu a mensagem silenciosa dela. Ficou nervoso.
Você ainda não pode ir, Mary Hellen.
Mas...
A única razão de tudo estar correndo de forma tão tranquila por aqui é sua presença como intérprete.
Mary Hellen pareceu em dúvida.
  Já sabe a maior parte do que Ekhatherina diz, Christopher. Ela pede leite, biscoitos, ou avisa que a fral­da está úmida. Coisas elementares. Você descobriria mes­mo sem mim.
  Ainda não pode ir — repetiu.
Por que Christopher sentia-se tão ameaçado com a sugestão de sua partida? A mente dele girava tão de­pressa, mas não encontrava a resposta.
—        A situação com Ekhatherina pode estar sossegada — prosseguiu Mary Hellen —, contudo, as coisas entre mim e você...
Ela hesitou, cerrou os lábios e deu prosseguimento a seu raciocínio:
—        Sempre fico imaginando quando um de nós terá coragem de admitir que há nuvens densas pairando sobre nossas cabeças. De novo.
Christopher não queria discutir o assunto que surgiu no dia em que foram fazer compras. Não gostaria de ter de explicar o próprio comportamento, sua ira. Por isso, optou pelo silêncio.
—        Olhe, Christopher, nunca tive intenção de trazer discórdia a seu lar. Não pense que deixei de notar como tem trabalhado pouco desde que sugeri que encontrasse uma esposa verdadeira.
Mary Hellen aguardava que ele dissesse algo. Mas Christopher não falou nada. Não poderia.
  Eu devia ter guardado a opinião para mim mesma. Sei disso agora. E lamento por tê-lo deixado bravo. Viver nesta quietude tão cheia de estranheza é tolice. É hora de eu ir embora. Você poderá me enviar os papéis para a anulação do casamento, e os assinarei.
  A anulação?
  Qual é o problema? Você tem cuidado disso, não é mesmo?
  Mary Hellen, eu esqueci completamente.
  Esqueceu?!
  Desculpe-me. Ligarei para meu advogado hoje mes­mo. Farei com que dê entrada na papelada. Não deve demorar muito para que os trânsmites legais sejam reali­zados. — Pegou um pequeno caderno preto de endereços e foi para a saída do escritório. — Fiquem à vontade aqui. Usarei o telefone da cozinha.
Christopher não compreendia a reação frenética que teve diante da possibilidade concreta de perder Mary Hellen. Embora soubesse que tratava-se de uma oferta de paz, sentira-se ameaçado.
Por isso, quis sair rápido de perto dela. Não entendia o motivo de sentir-se assim.
A soleira, virou-se para encará-la, tentando com es­toicismo acalmar os nervos e se controlar.
—        E quanto ao problema entre nós, Mary Hellen, te­remos uma conversa, está bem? Ajeitaremos tudo. Tor­naremos a situação melhor. Não quero que você se sinta desconfortável quando estiver perto de mim. No entanto, insisto que não pode ir ainda. Não até Ekhatherina poder comunicar-se comigo. Eu... preciso de você.
Era o máximo que Christopher era capaz de admitir. Logo em seguida, girou nos calcanhares e escapou dali.
Naquela noite, Christopher não conseguiu conciliar o sono. Por isso, foi para a sala e ligou o aparelho de televisão.
O noticiário, na voz do âncora, não o resgatou das conjecturas atribuladas.
Ficara arredio e preocupado durante toda a noite. Ekhatherina percebera sua agitação e acabara ficando irrequieta também e recusando-se a ir para a cama. Por fim, a menina chorara até adormecer, enquanto ele can­tava todo seu repertório de canções de ninar.
Era a primeira vez que isso acontecia desde que dei­xaram a Kyreznóvia. Mary Hellen ficara ao batente do quarto da criança e perguntara apenas uma vez se po­deria fazer algo para ajudar.
Christopher declinara da oferta, sentindo necessidade de lidar com o problema sozinho. Por fim, Mary Hellen fora para seus aposentos e se trancara lá dentro, deixando-o ao mesmo tempo aliviado... e muito solitário.
Sabia que estava errado. Precisava agir direito com Mary Hellen.
O relacionamento dos dois era muito volátil. Como uma pipa ao vento, ia para frente, depois mudava para a es­querda ou direita, sem aviso algum.
Haviam começado muito bem. Então ele cometera o erro de beijá-la. Em breve, aclararam e explicaram tudo. Em seguida, entretanto, Christopher ficara bravo diante da simples sugestão de que devia se casar.
Sim, decidiu, a amizade deles parecia-se com um brin­quedo, uma gangorra de parque de diversões.
Precisava restaurar a atmosfera de paz com Mary Hellen. Todavia, a questão seria se desculpar sem revelar demais. Não gostaria que ela soubesse muitos detalhes acerca de seu passado. Se isso ocorresse, decerto Mary Hellen viria a ter uma imagem ruim a seu respeito.
Naquele instante, Mary Hellen entrou na saleta. Christopher prendeu a respiração. Ela parecia uma visão usan­do a camisola simples e branca, as alças finas revelando o colo e os ombros alvos.
  Sinto muito, Christopher. Não sabia que você es­tava aqui.
  Não tem problema.
Algo no olhar de Mary Hellen fê-lo indagar:
  Você está bem?
  Eu... apenas tive um sonho ruim. E achei ter ouvido algo lá fora.
Christopher postou-se na beirada do sofá.
  Estou aqui há algum tempo, e não ouvi nada. Mary Hellen ainda parecia inquieta. Ele se levantou.
  Vou dar uma olhada na varanda.
O alívio e a gratidão refletidos no lindo semblante eram uma recompensa antecipada para Christopher.
A noite não tinha vento. Estava quente e sossegada.
Christopher verificou o perímetro da residência e a garagem, e então foi para o estábulo. Ambos os cavalos mostravam a respiração pausada e lenta, o que demons­trava estarem adormecidos.
O único movimento se deu quando Chunky surgiu de um canto da cocheira e enrolou-se nas pernas de Chris­topher em busca de um pouco de atenção.
Ele inclinou-se e acarinhou as orelhas da bichana.
—        Está caçando, menina?
Chunky miou e depois correu para as sombras deixadas pelo luar.
Quando Christopher retornou a casa, Mary Hellen já tinha ido para o andar superior colocar o robe. As curvas delgadas e os ombros não mais estavam visíveis, mas Christopher sabia que, para vê-las, bastaria fechar os olhos e recordar.
Está tudo em ordem, Mary Hellen. Tudo quieto lá fora. Nem sinal de problemas.
Melhor assim. Fiz um pouco de chá para nós. Espero que não se importe em ter um pouco de companhia. As vezes tenho dificuldade para adormecer. É raro, mas esta noite parece ser uma destas ocasiões.
O sorriso delicado, como que pedindo desculpa, enterneceu-o. Mas imaginar que Mary Hellen poderia estar com insônia por causa do que lhe dissera encheu-o de uma terrível sensação de culpa.
—        Ouça, Mary Hellen, lamento muito se... se a tensão entre nós a está aborrecendo a ponto de tirar seu sono.
Sentou-se no sofá ao lado dela.
—        Estive pensando sobre mim e você. Cheguei à con­clusão de que nossa amizade parece uma gangorra. É assim desde que nos conhecemos. Em um minuto, estamos nos
divertindo juntos. No seguinte, estou sendo grosseiro.
A lembrança de tudo o que disse para Mary Hellen após as compras no shopping o vexou.
Sinto tanto... Queria que nos déssemos bem. Ekhatherina e eu precisaremos de você por mais algumas se­manas. Quero que fique confortável aqui. Gostaria que se sentisse em seu próprio lar.
Não vou mentir, Christopher. Incomoda-me muito saber que está bravo comigo. Eu nunca devia ter levan­tado o assunto de você vir a se casar.
Não estou zangado.
O sorriso de Mary Hellen foi tênue, mas capaz de des­pertar sensações estranhas em Christopher. Seu sangue pareceu se aquecer, e a musculatura da cintura para baixo enrijeceu.
Estendeu a mão e pegou a xícara que ela lhe preparara, procurando deixar de lado as reações corporais.
Entretanto, eram autônomas. Christopher não conse­guia conter o aumento da pressão sanguínea ou a ação da testosterona.
Quando, enfim, voltou a fitá-la, repetiu:
—        Não estou zangado, Mary Hellen. Juro. Lamento ter sido malcriado com você. Não devia ter me comportado de maneira tão ríspida.
Christopher desejou que o assunto terminasse por ali. Tornou a sentar-se no sofá e se virou para a tela da tevê. Não podia dar mais explicações. Não suportaria revelar seu passado.
Mary Hellen jamais compreenderia. Afinal, nem mesmo ele entendia como pudera fazer aquilo. Como então esperar que Mary Hellen aceitasse? Não, não revelaria mais nada.
O silêncio ficava mais pesado a cada segundo. Chris­topher olhou de soslaio na direção de Mary Hellen e viu que ela também assistia à televisão, mas sua expressão e a postura rígida revelavam que não estava nem um pouco interessada no comercial de automóvel.
Christopher até compreendia a expectativa que ema­nava dela, o nervosismo que ela demonstrou ao aparecer na sala de estar. Decidiu que seria bom para Mary Hellen uma conversa que a fizesse esquecer-se do sonho ruim que a perturbara.
  Fui criado nesta casa.
  Oh, que agradável! Menino de sorte! Sei que já disse isso antes, mas vale repetir. Sua propriedade é muito bonita.
Christopher achou graça.
—        Nasci aqui, na Filadélfia. Fui para a escola e para universidade local. E você, onde nasceu? A que lugar pertence? — O sorriso de Christopher esmoreceu ao vê-la nervosa.
Mary Hellen foi ágil em tentar esconder a reação, po­rém, não o bastante.
—        Nasci em Elkhart, Indiana. Mas lar é qualquer local onde eu esteja.
Seria imaginação de Christopher ou Mary Hellen co­locara uma ênfase exagerada nas últimas palavras?
—        Então, é uma garota do meio-oeste, certo?
Mary Hellen limitou-se a sorrir e a tomar um gole de chá.
O que seu pai...
Não tenho pai. — Mary Hellen pareceu tão surpresa com sua entonação quanto Christopher. Enrubesceu, em­baraçada. — Quero dizer... claro que eu tive um. Ocorre que nunca o conheci.

  Ah, então foi criada por sua mãe? Mary Hellen fitou o vazio.
  Não. Cresci em lares adotivos. Christopher não conteve um suspiro.
Naquele instante, um fato muito peculiar ocorreu. Mary Hellen sentou-se, bem aprumada, esboçou um largo sorriso e permitiu que seu bom-humor habitual retornasse.
—        Não foi uma vida ruim, Christopher. De fato, eu diria que, no final das contas, até que tive uma boa in­fância. Aprendi a lidar com tipos diferentes de pessoas, morando em todas aquelas casas. Com todas aquelas...
Houve uma breve hesitação, mas logo Mary Hellen prosseguiu:
—        ...famílias. Aprendi a ser independente, a contar comigo mesma. Compreendi que sou minha melhor ami­ga. E posso sobreviver a quase tudo.
O discurso retórico não parecia franco. Algo estava fora de lugar. Tratava-se de uma encenação. Christopher teve a distinta impressão de que Mary Hellen tentava desesperadamente esconder algo.
Devia conter a curiosidade, estava certo disso. Se ela queria se poupar de revelações ingratas, devia permitir-lhe que assim procedesse.
No entanto, havia algo em seu olhar... Um brilho triste em suas pupilas.
Christopher sentiu-se tocado. Tinha de obter uma resposta.
— Não foi tão maravilhoso assim, não é mesmo?
Por um instante as feições dela ficaram rígidas, como a esconder-se sob uma máscara protetora. Christopher achou que Mary Hellen pretendia manter de pé aquela parede de energia otimista.
Foi então que ele notou um breve movimento na gar­ganta delicada. Ela engolia em seco.
Em seguida, seus ombros penderam um pouco para a frente, e Mary Hellen emitiu um suspiro de incrível melancolia.

CAPÍTULO VIII

A vulnerabilidade de Mary Hellen era insuportável para Christopher. Queria tocá-la, acalmá-la, fazê-la saber que não importava o que pu­desse ter enfrentado, tudo ficaria bem.
Porém, Christopher lutava contra a vontade de ter novo contato físico com ela. Sabia que não seria apropriado.
Entretanto, podia demonstrar sua consideração de ou­tra maneira. Com gentileza, carinho. O máximo que pu­desse, porque sentia que ela precisava.
—        Você — Mary Hellen gaguejava — está certo, sem sombra... de dúvida.
Sua voz soava tão pueril... O impulso de Christopher em protegê-la se intensificou ainda mais.
—        Minha infância não foi maravilhosa, de jeito nenhum.
A estranheza na postura dos ombros de Mary Hellen e o desconforto em sua expressão mostravam que a ad­missão ia contra seu comportamento habitual.
Christopher reconheceu naquele instante que ela escon­dia muito atrás daquele belo sorriso. Ficou curioso de saber o que Mary Hellen precisou enfrentar quando criança.
—        Fui para um orfanato quando muito nova. Não tenho recordações de meus pais.
Mary Hellen era órfã, assim como a pequena Ekhatherina. A revelação tocava-lhe cada fibra do coração.
Como se lendo seus pensamentos, ela esclareceu:
—        Eu não era órfã, Christopher. Fui abandonada. Pas­sei de um lar adotivo para outro. É tudo de que me lembro. Fazia novos amigos e depois perdia contato quan­do essas pessoas saíam de minha vida após alguns meses, ou um ano.
O olhar de Mary Hellen migrou de um canto distante da sala para a xícara que tinha na mão.
—        Cheguei a ter boas experiências. A maior parte dos adultos que cuidaram de mim eram pessoas generosas e de boa índole, que desejavam abrir seus lares para crianças desabrigadas. Contudo, alguns pertenciam a gente que ape­nas queria o dinheiro do governo. Abrigar garotos solitários era um modo de conseguir isso. E tinham um bom lucro dando-nos a comida mais barata possível e nos proporcio­nando roupas e sapatos de péssima qualidade.
Christopher observou-a mergulhar no passado triste. Duvidava que Mary Hellen tivesse consciência do quanto estavam próximos fisicamente, tão absorvida se encon­trava na própria história.
—        Devo dizer que tive sorte. Fiquei apenas em uma casa onde não fui bem tratada. Os pais adotivos eram muito rígidos. Gostavam de disciplina, era o que diziam. E eu achava que merecia a punição que recebia.
Sua voz não era mais que um sussurro.
—        Recordo-me bem de uma vez em que fui espancada, porque não tinha arrumado a cama. Sabia que era uma regra importante. A lei, na realidade. Não podia descer para tomar café da manhã a menos que o leito estivesse arrumado. Mas dormi até tarde, e teria enfrentado um
problema maior se chegasse atrasada à escola.
Seu belo rosto contorceu-se de leve com a indecisão que devia ter sentido, ainda pequena. Que regra devia ter quebrado? Deixar de arrumar a cama ou atrasar-se para a escola?
Minha professora da terceira série notou a marca que a cinta deixara em minha perna e chamou o Serviço Social. Fui tirada da guarda deles no mesmo instante.
Que bom! Espero que o governo tenha tomado a sábia decisão de não enviar mais nenhuma criança aos cuidados daquelas pessoas.
Mary Hellen piscou duas vezes, como se o comentário dele a trouxesse de volta ao presente.
Tenho certeza de que não fizeram isso, Christopher. A necessidade de pais adotivos era grande demais. Havia muitos menores e poucas casas. Sei que eles foram ad­vertidos, mas isso, decerto, não mudou nada.
O que é um completo absurdo!
Christopher sentia uma enorme raiva. "Ultrajado" era o termo correto, com o casal que machucara Mary Hellen. com o governo, por ter permitido que o tratamento pros­seguisse com outros pequenos inocentes.
Mas tudo aquilo ocorrera tanto tempo atrás... A ira começou a se esvair, dando lugar à tristeza.
—        Algo fantástico aconteceu quando eu estava na sé­tima série. Um professor costumava colocar algumas fitas cassete espanholas na aula. No dia seguinte, fui para a escola falando um pouco de espanhol. Até mesmo juntava palavras para formar sentenças. E, por algum motivo, as frases não saíram mais de minha cabeça. O sr. Callahan ficou impressionado. Acabou trabalhando comigo durante o ano todo. Ouvíamos fitas francesas, italianas, russas... de todos os idiomas. Parecia-me muito fácil ab­sorver a informação. Era como um jogo para mim.
A alegria de Mary Hellen tornava-a mais bela do que nunca. Christopher prendeu o fôlego, aguardando que o relato prosseguisse.
—        Mudei de escola e perdi contato com o sr. Callahan, mas continuei adorando estudar idiomas. Tive aulas de francês e italiano, no colegial. A conselheira não queria que eu tivesse. Tentou me dizer que seria estudo demais que bastaria um idioma estrangeiro. Mas eu provei que conse­guia, e continuei a aprender outras línguas sozinha. Logo, ganhei uma bolsa de estudos em uma universidade estadual. Mary Hellen pousou a xícara de chá na mesinha lateral.
—        Quem quer que tenha me dado esse dom divido... Deus, o destino ou a natureza... me salvou. Presenteou-me com algo em que focar a energia, a direção. Encontrei meu caminho.
Havia um traço muito grande de solidão na última frase, considerou Christopher. Algo que necessitava de pondera­ção. Mas não deu-se tempo para pensar no assunto. Mary Hellen precisava de incentivo para continuar desabafando.
—        E agora você usa sua capacidade para ensinar crianças. Mary Hellen assentiu e quedou em silêncio. Entretan­to, rua mente ainda perambulava no passado.
—        Eu procurei por meus pais.
Christopher pôde vislumbrar o pesar e a rejeição que ela decerto experimentara.
—        Quando fiz dezoito anos, fui ao Departamento de Serviços à Infância. O que descobri foi que não havia mformação alguma a respeito de meu pais. Nem tinha nome ou endereço. Nada. Mamãe colocou o nome de meu pai em minha certidão de nascimento como John Doe.  Ela desistiu de mim no dia em que nasci, assinou um papel recusando-se a dar informações a respeito dela a mim. E a qualquer outra pessoa. As mãos do governo estavam atadas Não podiam me revelar  nada.
Mary Hellen escondia bem a angustia. Mas Christopher era capaz de notá-la e sentir-se muitíssimo afetado por isso.
Aquela moça precisava ser abraçada. Necessitava de algum consolo físico.
Deixando de lado a xícara, aproximou-se e tomou Mary Hellen nos braços. E não houve a menor nuance de he­sitação nela ao abandonar-se ao carinho.
— Está tudo bem — Christopher murmurou contra os cabelos cheirosos. — Você não pode fazer nada sobre as escolhas que duas pessoas fizeram anos e anos atrás. Quem sabe quais as circunstâncias em que se encontra­vam? Talvez fossem muito jovens e incapazes de...
Deixou a sentença inacabada, percebendo que nada do que dissesse abrandaria a dor de Mary Hellen. Não havia consolo que pudesse banir o mal por ter sido rejeitada.
Não importava o que pudesse explicar ou que situação mais agradável Christopher tentasse desenhar para jus­tificar o comportamento dos pais dela. Por isso, aquietou-se e a manteve junto a si.
Talvez o contato próximo de alguma maneira suprisse um pouco do amor e da compaixão que faltaram na in­fância de Mary Hellen.
Longos minutos se passaram, e ela parecia feliz, acon­chegada ao peito largo. Não chorou, mas via-se que estava pesarosa.
Christopher deslizava as palmas para cima e para bai­xo nas costas dela, em ritmo lento.
Logo tornou-se consciente da suavidade da pele debaixo de seus dedos, do calor do corpo sinuoso, do aroma de flores da cabeleira ruiva, da sensação dos seios firmes contra seu tórax.
Não era hora de se sentir excitado. Mas, que os céus o ajudassem, era justo isso o que experimentava.
E não era uma paixão germinando e crescendo aos poucos. O desejo inflamado multiplicava de intensidade vindo do nada, dominando-o em um turbilhão, quase esmagando-o, como uma imensa onda do mar.
Em um instante, vira-se preocupado; no seguinte, es­tremecendo por causa de uma volúpia tão intensa que quase roubava-lhe o fôlego.
A pulsação estava mais rápida a cada segundo. Christopher queria afastar a cabeça, apreciar a visão do rosto pálido como porcelana, contemplar os belos olhos verdes, beijar os lábios rosados até não haver um traço sequer de melancolia em Mary Hellen.
Contudo, não poderia fazer isso. Não era o momento apropriado. Tampouco o local.
Então lembrou-se de que nunca haveria momento nem lugar corretos. Não com Mary Hellen. Ela era bondosa demais, muito frágil.
As poucas mulheres que escolhera namorar souberam desde o princípio que Christopher não tinha intenção de comprometer-se. Dava preferência àquelas que podiam cuidar de si mesmas. Apreciava as que eram tão egoístas quanto ele.
Dessa maneira, quando se via pronto para finalizar um relacionamento, o que sempre acabava fazendo, sentia-se confortável por a garota ter condições de ficar bem. Não a deixaria com o coração despedaçado.
Porém, Mary Hellen não pertencia a essa classe. Era vul­nerável, amorosa e carinhosa. Acabaria se machucando. Por isso ele precisava frear as sensações físicas. E ponto final.
Sentiu a mão de Mary Hellen no peito quando ela, com delicadeza, se afastou. Ergueu o queixo e encarou-o. Christopher achou que ia derreter com o calor daquele olhar. Mary Hellen analisou-lhe os lábios, e então voltou a atenção de novo para os olhos.
Ela também sentia atração. A constatação era óbvia.
Para aumentar o martírio de Christopher, a vontade de beijá-la tornava-se insuportável. Mas recusava-se a capitular.
Mary Hellen significava muito para ele, e para sua garotinha também.
No entanto, a ânsia avassaladora refletida no sem­blante de Mary Hellen devia ser semelhante à dele. Ambos queriam que aquele momento se transformasse em algo mais. Entretanto, nenhum dos dois ousava ultrapassar a linha divisória estabelecida, dando o primeiro passo.
Os motivos de Mary Hellen para hesitar não estavam claros para ele. Christopher já possuía muitas peças do quebra-cabeça sobre aquela bela jovem e o que pensava, mas ainda não conseguia formar uma figura completa.
Sabia muito bem, porém quais as suas razões. Eram fortes e corretas.
Enfim, Mary Hellen engoliu em seco e afastou-se mais. Os braços de Christopher escorregaram, desfazendo o enlace.
  Vòcé é um bom homem Muito bom, mesmo, Obri­gada por deixar que eu desabafasse.
  Estarei aqui sempre que precisar, Mary Hellen. Sabe disso
Mas ela fitou o nada, como se não soubesse... ou quisesse saber.
Christopher desejava protestar. Detestava a idéia de que o clima de estranheza pudesse retornar entre os dois
—        Já basta dessa conversa sombria. Conte-me o que você descobriu hoje, quanto à anulação.
Christopher ficou grato por ter um assunto com que podia lidar bem.
—        Descobri que será bem fácil e rápido. Meu advogado começará a preencher a papelada amanhã. E como nós dois podemos garantir que não houve... bem... Como não houve... contato físico, consumação... dará tudo certo
Mary Hellen tentou esconder o embaraço, e Christo­pher não pôde deixar de pensar em como ficava mais bonita ainda com a face purpúra.
—        Nós sabíamos disso não é? — Mary Hellen evitava olhá-lo, — Não houve nenhum problema.
Christopher ficou imaginando como Mary Hellen podia dizer aquilo se ambos haviam acabado de experimentar sensações tão poderosas. Mas talvez fosse melhor aterem-se aos fatos em vez de se envolver com sentimentos. Passaram mais alguns momentos conversando a res­peito dos procedimentos legais e quando o assunto se esgotou, Mary Hellen disse:
  Acho que vou para a cama, Christopher. Está fi­cando tarde. E melhor você ir também. O sol está prestes a nascer.
  Pois é. Subirei em poucos minutos.
Mary Hellen levou as xícaras consigo para colocá-las na pia.
O televisor continuava a transmitir uma notícia qualquer.
Christopher viu-se sozinho. E exausto, como se tivesse participado de uma batalha imensa... e vencido.
A luta fora contra ele mesmo e a vontade imensa de possuir Mary Hellen.
Ao menos tinha confiança de que poderia vencer a atração outras vezes, se o desejo aflorasse. E tinha quase certeza de que isso tornaria a acontecer.
Bem, se a força de vontade sozinha não bastasse, sem­pre havia a possibilidade de um banho frio.
Entretanto, estava mais preocupado com outra coisa, algo que começava a germinar. Mary Hellen despertava-lhe emoções que não queria sentir, de jeito nenhum.
Sim, um bom banho frio poderia cuidar da atração física que o atormentava. Mas e quanto à emotividade? E aquilo tudo que lhe ia no coração, algo que prosseguia muito tempo depois de a luxúria ter sido controlada?
Um banho de imersão à tarde. A idéia era maravilhosa.
Mary Hellen acomodou-se na banheira, a água passeando pelos dedos dos pés, pela barriga e pelos seios. Bolhas de espuma brincavam em cada ponto da pele exposta. Baixou as pálpebras, permitindo-se o luxo de se entregar à preguiça.
Suspirou, feliz, afundando-se mais. Duvidava que qual­quer pessoa em Kyreznóvia, até mesmo os cidadãos mais ricos, possuíssem uma banheira, e ainda por cima com sais de banho tão deliciosos. Não apreciava uma extravagância assim desde que... Ora, nem mesmo se lembrava de quando.
Ekhatherina tirava uma soneca, Christopher se ocu­pava ao computador. E Mary Hellen relaxava com um bom livro em um paraíso úmido e borbulhante. Não podia estar mais satisfeita.
Sem que percebesse, Christopher invadiu seus pensa­mentos. E sua cabeça ficou repleta de recordações do abraço que recebera na noite anterior. Recordou o per­fume e o calor dele quando enlaçou-a bem forte.
Com facilidade, lembrava-se do desejo dançando nas íris castanhas. Tornou a fechar os olhos e sentiu o corpo respondendo à lascívia que Christopher lhe despertava. Sua epiderme arrepiou, e a região do ventre e das coxas pareceu ferver.
Num movimento lento, Mary Hellen alisou a barriga e então subiu para os seios, imaginando que era o toque de Christopher. A respiração acelerou.
"Ah, como o quero!" E ele a desejava também. Sabia disso. Vira em seu rosto, sentira a tensão dele.
Abriu os olhos quando um som chegou até ela, como que envolto por uma neblina, fazendo-a sentir-se temerosa. Por que sempre experimentava aquele turbilhão terrível?
O barulho que ouvira em seguida a obrigou a arregalar os olhos. O que fora aquilo? Uma porta batendo? Uma...
O som de passos pesados a fez sentar-se na banheira com tamanha força que a água espirrou no chão.
— Christopher? O que é?
Então, Mary Hellen ouviu Ekhatherina chorando.
Como já morava naquela casa havia mais de duas se­manas, conhecia os diferentes choros da menina.
Ekhatherina chorava de modo mais agudo quando queria atenção, mais brava quando frustrada. A modulação se mo­dificava quando estava cansada ou com fome. Mas o que ouvia naquele instante era uma clara expressão de dor.
Mary Hellen se levantou da banheira, ensopando com o chão ao apanhar uma toalha. Enrolou-a ao redor de si e correu para a saída.
Entrou no quarto de Ekhatherina e viu Christopher em pé, com a filha nos braços.
  Christopher! O que aconteceu?
  Ekhatherina tentou sair do berço e caiu. Graças a Deus não está machucada.
A culpa dele era tamanha que Mary Hellen quis es­tender a mão para confortá-lo. E foi o que fez. Pousou os dedos em seu braço, e afagou as costas de Ekhatherina.
  Não havia como prever esse acidente, Christopher.
  Ekhatherina podia ter quebrado o pescoço, Mary Hellen. Tenho de baixar o colchão do berço. Deve haver uma maneira de fazer isso...
  Tenho certeza de que há. — Ela sentia o remorso dele dilacerando-lhe a alma. — Mas, neste momento, é melhor colocarmos um pouco de gelo no lugar onde Ekhaterina bateu a testa.
  Claro! — Christopher apressou-se a seguir a ins­trução. — Como pude ser tão tolo? Devo colocar uma compressa fria na testinha dela.
Foram para a cozinha a passos rápidos. Mary Hellen sentia-se péssima por ter feito piorar a crise de cons­ciência de Christopher ao mencionar o que fazer.
—        O piso é acarpetado, Christopher. A queda não deve ter sido tão dolorida.
Christopher abriu a porta do congelador.
—        Deixe-me pegar isso — Mary Hellen adiantou-se. Ela colocou diversos cubos de gelo em um saco plástico e rodeou-o com um pano de prato limpo. Levou alguns ins­tantes para fazer com que Ekhatherina deixasse que colo­cassem a compressa improvisada na marca avermelhada
Christopher sentou-se em uma cadeira, com a filha no joelho. Mary Hellen ajoelhou-se ao lado deles, tentando chamar a atenção da criança, e assim deixar que Chris­topher ajustasse melhor o gelo. Ekhatherina parara de soluçar, mas continuava resmungando.
Parece que ela não está sofrendo, Christopher.
Sim, mas ainda há meio em seu rostinho. Aposto que a queda a apavorou.
Mary Hellen pôde apenas assentir.
Papai consertará seu berço, querida — ela disse à menina, que se virara para encará-la.
Eu devia ter instalado o colchão na posição mais baixa quando montei aquele móvel. Se tivesse feito isso, ela não teria caído.
Sim, mas você teria quebrado as costas tentando colocar e tirar Ekhatherina de lá.
—        Melhor do que ela cair e quebrar o braço ou algo assim.
Christopher sentia-se responsável pela queda da me­nina, e Mary Hellen, desconfortável quanto a isso.
—        Christopher, você não conseguirá manter Ekhathe­rina segura em todos os instantes do dia. Fará o possível, mas é inevitável que aconteçam alguns imprevistos.
Christopher apenas fitava-a, o cenho franzido de preocupação.
—        Eu me lembro de que, em um dos lares adotivos em que cresci, havia um portão de segurança colocado no topo de um lance de escada. Um garotinho, mais ou menos da idade de Ekhatherina, talvez um pouco mais velho, conseguiu subir no portão e caiu de lá. Quebrou o nariz e seu olho ficou preto e inchado por vários dias.
Ela suspirou e se voltou para Christopher.
—        A casa estava cheia de gente, mas ninguém viu o garoto subindo ali. Crianças têm seu jeito de meter-se em confusão.
Mesmo assim, ele permanecia em silêncio. Assim como Ekhatherina.
A imobilidade de Christopher, sua inabilidade em se expor, diziam-lhe como estava aborrecido consigo mesmo e se sentia culpado por a filha ter se machucado.
Mary Hellen executava pequenos círculos coro o dedo na perna dele. Então, deu-lhe dois tapinhas e falou com suavidade;
—        Não pode culpar-se por isso. Arrumaremos o berço para que a danadinha não consiga mais subir. Tudo ficará bem. Posso garantir.
De imediato, Ekhatherina estendeu a mãozinha e to­rnou entre os dedos algumas bolhas de sabão que paira­vam no ombro nu de Mary Hellen. A garotinha riu quando as bolhas delicadas desapareceram de repente.
Mary Hellen arregalou os olhos, lembrando-se então que estivera tomando banho quando ouviu o barulho do quarto de Ekhatherina. Olhou-se de cima abaixo dan­do-se conta de que usava apenas a toalha.
O tecido fino se entreabrira na região das coxas, expondo muito de sua nudez. Quando tornou a encarar Christopher constatou que ele não esteve olhando para o chão por se julgar culpado  mas sim observando com intensidade suas pernas!
Mary Hellen quis desaparecer da face da terra. Num gesto rápido, se aprumou e tentou, em vão, fazer com que a toalha cobrisse mais de que era possível.
Christopher parecia tão encabulado quanto ela, os olhos arregalados ao fitá-la. Entretanto logo pode vê-lo lutando para suprimir o riso que começava a fazer suas pupilas brilharem.
Devia sentir-se humilhada por Christopher estar zom­bando dela. E brava. Chocada. Furiosa até. Mas nunca lisonjeada.
Mary Hellen não sorriria em resposta ao sorriso pro­vocante e sensual. De modo algum!
Christopher flertava com ela. Podia ver isso em seu olhar faminto, no jeito sensual. Aquele homem a queria.
Mary Hellen sentiu um arrepio percorrer-lhe a espi­nha, e um medo devastador a gelou.
—        Eu... estava na banheira... — A verdade óbvia saiu em tom de desculpa. — Quando ouvi o choro de Ekhatherina, fiquei apavorada. Não sabia o que tinha acontecido...
"Por que estou gaguejando de novo? Será que dei para isso agora?"
—        Nem parei para...
Mais um pouco e Christopher soltaria uma sonora gargalhada.
—        Posso ver, Mary Hellen.
O tom grave deixou-a ainda mais arrepiada. Sentiu os bicos dos seios intumescerem. E, para piorar, Chris­topher se pôs a observá-la por inteiro, sem o menor cons­trangimento. E isso após os pensamentos eróticos que Mary Hellen teve com ele momentos atrás na banheira...
Mary Hellen cruzou os braços para proteger os seios. Não havia um jeito gracioso de fazer aquilo sem que Chris­topher percebesse a exata reação que tentava esconder.
  É melhor eu ir lá para cima... porque... Eu... acho que devo...
  Sim. Pode estar certa de que deve.
Diante do trejeito sexy, Mary Hellen só pôde se virar e sair correndo da cozinha, ouvindo atrás de si o riso deliciado de Christopher ecoando por todo o ambiente.

CAPÍTULO IX

Christopher apreciava a mudança em seu relacionamento com Mary Helen. E sabia que o incidente das bolhas de sabão, pois era assim que se referia à situação ocorrida dias atrás, fora a causadora dessa modificação.
Estavam brincalhões um com o outro. Amigáveis, em clima de flerte. Era tudo muito divertido e alegre, e Chris­topher recusava-se até mesmo a considerar, quanto mais contemplar, todas as implicações disso. Preferia, por en­quanto, concentrar-se em apenas em apreciá-la.
Verificou a sela de Blaze e depois de Pepper. Mary Hellen vestia Ekhatherina. Os três planejavam cavalgar até o parque e fazer um piquenique no café da manhã.
A possibilidade de viver acontecimentos especiais como aquele eram o motivo de sentir-se tão abençoado por ser dono do próprio negócio e trabalhar em casa
A maioria dos homens e mulheres tinham de enfrentar trânsito na rota Blue, mas Christopher tomava o desje­jum e apreciava o clima matinal exercitando um dos ca­valos no parque que rodeava sua residência. Sim, era um privilegiado.
Então, percebeu que Mary Hellen também era uma bênção em sua vida. Se não tivesse aparecido naquele restaurante de hotel em Kyreznóvia procurando emprego, talvez Christopher não tivesse conseguido a custódia de Ekhatherina.
Devia muito a ela. Após conhecer seu passado e infância, sentia ainda mais vontade de protegê-la. E mais admiração. Ele ia lhe proporcionar um pouco de felicidade em sua estada na América do Norte; parecia capaz de banir todas as dúvidas e hesitações que Christopher sen­tira quanto a isso.
Sem dúvida a decisão de nenhum dos dois buscar um envolvimento de longo termo ou até mesmo um caso ro­mântico ainda era firme. Mas isso não significava que ele e Mary Hellen não pudessem aproveitar bons mo­mentos com Ekhatherina ou que não devessem ter re­cordações agradáveis de eventos que vivenciassem, vindo a ter algumas reflexões saudáveis que poderiam acalen­tar depois que se separassem.
Depois que ela fosse embora.
As palavras ecoavam na mente de Christopher, os braços relaxaram nas laterais do corpo e o olhar baixou para estudar o chão. A idéia daquela casa sem Mary Hellen deixava o com uma sensação...
—        Estamos prontas!
À voz alegre de Mary Hellen interrompeu sua conjectura. Ekhatherina gritava deliciada para saudá-lo; esticou o bracinho para locar nele.
—        Você adora esses cavalos não é mesmo, querida? — Christopher  acariciou os cabelos macios da menina
— Tem certeza que essa boa invenção para levar Ekhatherina consigo funciona?
—        Tudo dará certo, Mary Hellen. Iremos devagar, farei com que ela se habitue a cavalgar. E eu também terei de me acostumar a ser um papai apache.
Christopher achava a preocupação de Mary Hellen en­cantadora. Na verdade, pouco havia nela que não julgasse cativante.
  Está duvidando de mim?
  Oh, não! — Mary Hellen riu. — Se alguém pode lidar com a montaria e ao mesmo tempo carregar um bebê, essa pessoa é você.
Mary Hellen olhou para a garota.
—        Não concorda, Ekhatherina? Confiamos muito em seu papai. Christopher pode lidar com tudo.
O elogio enterneceu-o. Entretanto, não podia deixar de notar que a entonação animada demais denotava um quê de preocupação nublando a confiança que Mary Hel­len tentava demonstrar.
Christopher colocou o indicador sob o queixo de Mary Hellen e ergueu-lhe o rosto para que o fitasse.
  Tudo dará certo — prometeu, com suavidade. O frio ar matinal pareceu repleto de eletricidade.
  Estou certa de que sim.
Aquele sorriso leve e cativante provocava emoções es­tranhas para Christopher. Era pura luxúria. Christopher achou que o coração saltaria do peito.
Ajeitou as tiras nos ombros, e Mary Hellen colocou Ekhatherina na cadeirinha de lona atada a ele.
Durante todo o tempo, a criança batia palmas e ria, sabendo que algo excitante estava prestes a acontecer.
Blaze e Pepper foram conduzidos para fora do estábulo.
  Tudo pronto, Christopher?
  Sim, Mary Hellen.
Com Ekhatherina segura em suas costas, Christopher não pôde ajudar Mary Hellen a montar Pepper, mas co­locou a mão em sua coxa para ampará-la ao montar.
—        Suco, frutas... tudo ajeitado nas sacolas de sua sela.
—        Eu sou principiante nisso — Mary Hellen lembrou-o, dando um tapinha na mão ainda pousada em sua perna.
Com o calor da carne firme em sua palma, a suavidade dos dedos dela a cobrirem os dedos, Christopher acreditou que pegaria fogo a qualquer momento, por combustão espontânea. Soltou-a e deu um passo para trás.
Ele sorria ao pegar as rédeas de Blaze, na tentativa de disfarçar a reação física.
—        Eu me lembrarei de que tenho duas amadoras co­migo esta manhã.
Ekhatherina gritou de susto quando Christopher mon­tou Blaze. Mas, assim que se viu bem instalada e o pai murmurou frases de conforto, ela ficou quieta, embora ainda se agarrasse a ele com firmeza.
A trilha estava banhada pelo sol, e flores coloridas eram avistadas entre arbustos de um verde exuberante. Carvalhos frondosos ofereciam-lhes sombra fresca, uma boa proteção para o sol de verão.
Após um passeio de vinte minutos durante o qual en­contraram um corredor solitário nas trilhas do parque, Christopher sugeriu:
—        Que tal se parássemos aqui para a refeição?
—        Parece ótimo! — Mary Hellen ajeitou os cabelos.
Ela apeou com facilidade e enrolou as rédeas de Pepper em uma cerca.
Christopher procurou avisar Ekhatherina de que es­tavam prestes a apear.
—        Vamos descer, querida.
Sem esperar que Mary Hellen traduzisse para a me­nina, Christopher levantou a perna por sobre a sela.
Então, sentiu uma dor intensa na cabeça, fechou os olhos e fez uma careta.
—        Ai! — Estendeu a mão e, com delicadeza, segurou os pulsos da filha.
Mary Hellen levou a mão à boca, num esforço hercúleo para não soltar uma estrondosa gargalhada. Christopher, apesar do sofrimento, não conseguiu ficar zangado.
  Acho que Ekhatherina encontrou corrimãos perfei­tos — disse Mary Hellen, zombeteira.
  Não são corrimãos. São minhas orelhas!
Mary Hellen, por fim, cedeu ao riso. Ekhatherina tam­bém, parecendo felicíssima por ter causado tamanha con­fusão entre os adultos.
—        Você, por favor, poderia me ajudar a tirar este pe­queno fardo das costas?
Mary Hellen continuava a gargalhar, ao mesmo tempo soltando o nené. Tudo o que Christopher pôde fazer foi massagear as orelhas vermelhas.
Ekhatherina andou cambaleante na direção da mesa de piquenique, parando ao longo do caminho para investigar plantas rasteiras e outros itens que lhe interessaram.
Christopher tentava livrar-se da cadeirinha de lona atada aos ombros, mas uma tira ficou presa em um deles. Sem perguntar nada, Mary Hellen veio em seu auxílio. Livrou-o da cadeira e ajeitou-a sobre a sela.
Christopher pôs as mãos na cintura e arqueou as cos­tas, alongando os músculos. Inclinou o pescoço de um lado para outro. Sentiu a presença de Mary Hellen atrás de si e ficou imóvel quando o calor das palmas delicadas começou a passear pela musculatura de suas omoplatas.
Ela o massageava, apertando os polegares nos lugares corretos. Christopher conseguiu disfarçar um gemido de satisfação e fechou os olhos. Mary Hellen tinha dedos mágicos. Entretanto, seu toque gentil deixava-o zonzo de prazer. Como era sensual!
Então, sentiu os dedos leves com delicadeza se apro­ximando de sua orelha esquerda. A garganta ficou seca, e Christopher parou de respirar, aguardando.
—        A vermelhidão vai passar, Christopher. Creio que você conseguirá sobreviver.
O hálito doce estava bem próximo, e lançou um arrepio gostoso pela coluna de Christopher, de baixo para cima. Sentia a região da virilha queimando.
Queria abraçá-la, inalar o cheiro de seus cabelos e pele, tocar toda a extensão do pescoço elegante com as mãos e os lábios. E, em um momento de insanidade, Christopher submeteu-se ao que o atormentava.
Sem aviso, virou-se, sorrindo diante da surpresa que pôde notar no semblante adorável. Segurou Mary Hellen pelos braços para que ela não pudesse retroceder. Seus belos olhos se arregalaram.
—        O sol da manhã deixa sua cabeleira como uma cha­ma — ele murmurou, certo de que a metáfora era provocada pelo fogo que o consumia por dentro.
Christopher amparou-a contra o peito, mal tocando o nariz em sua têmpora.
—        Seu cheiro é tão bom...
Mary Hellen sentia-se pequenina naqueles braços. De­licada e frágil como uma flor.
Christopher passou a ponta do nariz pelo rosto dela, da testa ao queixo e então para cima, ousando tocar a pele macia da face com o queixo. Em seguida, pressionou de leve sua boca. Como Mary Hellen era suave!
Christopher se deu conta que se sentia feliz pelo sim­ples fato de estar perto dela. No entanto, tal felicidade foi mostrando-se insuficiente e cedeu lugar a uma ne­cessidade incrível de saboreá-la, tocá-la mais.
Christopher esgueirou os dedos por trás das orelhas de Mary Hellen e analisou seu olhar, desejando decifrar como reagia ao que ocorria entre os dois.
Seu recém-formado instinto de pai, contudo, o fez olhar de relance para a filha, que ocupava-se em reunir algu­mas folhas. Sentiu segurança em contemplar Mary Hel­len mais uma vez, buscando saber o que ela sentia.
Sua expressão era impossível de definir. Um mistério que Christopher queria desesperadamente desvendar, reificou um misto de emoções. Incerteza, confusão, espanto, dúvida. Medo?
Foi então que vislumbrou o desejo. Puro e intenso.
A paixão que leu nas íris verdes parecia indesejada, como se Mary Hellen não quisesse, não devesse senti-la. Mas estava ali, na respiração entrecortada e no corpo trêmulo.
Gomo a confirmar seus pensamentos, ela murmurou, com suavidade:
  Não devemos, Christopher,
  Pois eu não me importo. E você?
A volúpia também a dominava, isso era óbvio. Sem hesitar, Mary Hellen relaxou junto dele.
O sabor de Mary Hellen era doce. A boca, delicada, quente.
Afastando-se um pouco, ela falou, contra os lábios dele:
—   Ekhatherina...
A preocupação para com a menina bem no meio de um beijo apaixonado fez Christopher desejar apenas pegá-la com toda a força e beijá-la mais Mary Hellen; um ser humano fabuloso.
            — Ela está bem — garantiu, lançando outro olhar de soslaio par a menina para certificar-se. Seu bebê adorável separava folhas e gravetos em pi­lhas para Mary Hellen, que baixou as pálpebras parecendo também gostar daquele carinho proibido.
Talvez Christopher devesse soltá-la e se esforçar para es­quecer a existência daqueie beijo. Entretanto, a necessidade de abraça-la, beijá-la atormentava-o fazia tanto tempo; pela primeira vez em semanas, notou que a agonia não poderia mais ser sustentada. Por isso, não desistiria daqueles momentos preciosos.
Beijou uma pálpebra. E então outra. Um canto da boca, depois o outro lado.
Mary Hellen encarou-o e, por um único instante, Chris­topher percebeu como suas almas se conectaram. Foi en­tão que ele soube.
Estava se apaixonando.
A dra. Smyth auscultou o coração de Ekhatherina e depois pressionou o estetoscópio nas costas da menina. A pediatra sorriu para Christopher quando Ekhatherina bateu os bracinhos e riu.
—        Ela é uma criança feliz.
Christopher limitou-se a aquiescer. Não deixaria que a boa médica o distraísse. Ouvira falar em imunização de crian­ças, e não estava disposto a permitir que a filha sofresse.
—        Muitos bebês desta idade costumam gritar durante a primeira visita a meu consultório. — A médica colocou Ekhatherina na balança e inclinou-se para fazer a leitura.
Christopher sentia as mãos úmidas, e passou-as pela calça comprida. Não gostava da idéia de a dra. Smyth estar prestes a machucar sua garotinha com agulhas, embora soubesse que um pouco de dor seria necessário e que poderia salvar a vida de Ekhatherina nos anos vindouros. Mesmo assim, não conseguia conter a relutância.
—        Hum... — a médica murmurou. — O peso dela está no limite inferior da tabela.
Christopher arregalou os olhos.
  Isso é muito ruim?
  Bem, Ekhatherina parece saudável.
  É, sim, muito — apressou-se em garantir. — Pelo que sei.
A dra. Smyth assentiu, não desviando a atenção do exame que fazia na menina. Estendeu uma bola e pareceu satisfeita quando Ekhatherina inclinou-se para pegá-la.
—        Sua visão e coordenação motoras parecem normais. Meu palpite é que ela não teve muito o que comer durante sua estada no orfanato. Como Ekhatherina tem se ali­ mentado desde que a trouxe para casa?
—        Come muitíssimo bem. Tem um apetite voraz.
A médica achou graça.
—        Ótimo. Farei apenas uma anotação na ficha dela para ficarmos bem atentos a seu peso.
O exame prosseguiu, e a mente de Christopher mais uma vez foi capturada pela idéia daquelas agulhas, que, sabia, nos próximos cinco a dez minutos estariam espe­tando sua garotinha.
Colocando Ekhatherina no chão, a doutora encorajou a criança a caminhar pela pequena sala.
—        Seu equilíbrio é excelente. Ekhatherina anda bem. Como qualquer outra menina de seu tamanho.
Por fim, Christopher não pôde mais conter a ansiedade: — Vamos falar sobre as vacinas para Ekhatherina. A dra. Smyth pareceu surpresa, e ele sentiu um calor no rosto.
—        Está bem, sr. Kimball. Poderemos conversar sobre a vacinação dela, se é o que quer.
Embora tentasse relaxar, Christopher sentia a mus­culatura tensa.
A médica analisou a planilha de Ekhatherina. Em se­guida, disse:
Como você sabe, sua filha recebeu algumas das va­cinas necessárias e fez teste de tuberculose antes de per­mitirem sua entrada no país. Contudo, ainda há algumas providências a serem tomadas.
Como assim?
A imunização é feita em doses. Algumas levam três. Outras, quatro. E são ministradas no período de doze a dezoito meses.
Christopher franziu o cenho diante da perspectiva de ter de sofrer daquela ansiedade no decorrer do próximo ano e meio.
Claro, a médica notou sua apreensão.
—        Prometo, sr. Kimball, que não vou espetá-lo com uma agulha.
Ele sorriu diante da tentativa de acalmá-lo, mas a idéia de ver sua Ekhatherina chorando enervava-o,
  Talvez sua esposa devesse estar aqui com você e a filha...
  Oh, não, Mary Hellen... a moça na sala de espera... não é minha esposa. Ela é... bem... nossa babá.
O termo "nossa" soava tolo, Christopher concluiu assim que o deixou escapar.  Mas era como via Mary Hellen desde o dia em que a conheceu. Algo quase pessoal. Es­pecial. Por isso, não se importava com o modo como soava,
—        Ah, está certo. Talvez queira que ela esteja aqui, de qualquer maneira sr. Kimball para dar uma espécie de apoio moral a você e à sua filha.
A sugestão fez todo o corpo dele reagir. De imediato, ficou mais calmo, e, após umedecer os lábios, suspirou,
—        Acho que é uma grande idéia
Após alguns minutos e embora a doutora tivesse lidado com a seringa com bastante destreza, Ekhatherina não parava de chorar. Mary Hellen e Christopher faziam o possível para confortá-la, e a médica fazia anotações finais na ficha.
—        Saiu-se muito bem Ekhatherina — a dra. Smyth afirmou, passando a mão no braço da criança.
Mas Ekhatherina escondeu o rosto nc pescoço do pai
—        Sr. Kimball, minha secretária marcará a próxima consulta para daqui a dois meses.
Assim que a médica deixou os três a sós Mary Hellen se pôs a vestir Ekhatherina.
—        Meu Deus! — Christopher parecia desconsolado. — Detesto imaginar ter de voltar aqui. Pudera as crianças chorarem! O que acho impressionante é que os pais não gritem e chutem também. E saiam correndo.
Mary Hellen riu.
—        Quando a dra. Smyth aproximou-se de Ekhatherina com aquela agulha, tive certeza de que você faria isso: sairia correndo. Mas é necessário, você sabe.
Christopher assentiu, aborrecido.
  Sei, sim. E que... achei que minha tarefa não teria tropeços. Eu iria proteger esta criança preciosa de qual­quer dor, e ponto final.
  E está fazendo isso trazendo-a aqui.
  Mas me sinto tão estranho. Culpado.
Mary Hellen puxou Ekhatherina do abraço protetor de Christopher apenas o suficiente para passar o vestido pela cabecinha. Então, abotoou nas costas.
—        Tenho de admitir, Christopher, que achei que meu coração se partiria em dois quando vi Ekhatherina co­meçando a chorar. Mas a dra. Smyth foi bem ágil.
Christopher fitou Mary Hellen se sentiu uma onda de alívio por ela estar ali para dividir aquele momento de agonia com ele.
Os três foram para a recepção, e Mary Hellen tomou Ekhatherina do colo de Christopher para que ele pudesse preencher o cheque para pagar a consulta.
Ao aguardar o recibo, ele tornou-se muito consciente de Mary Hellen em pé logo atrás, ninando Ekhatherina com muita gentileza.
Desde que descobriu a natureza de seus sentimentos por Mary Hellen, sentia-se dividido. Por um lado, queria dizer a ela. Adoraria saber se havia a possibilidade de terem um relacionamento amoroso. Mas... sabia que de­via manter a boca fechada a esse respeito.
Gostaria de vê-la magoada? Porque, caso se envolvesse romanticamente com Mary Hellen, isso na certa ocorreria.
Ora, mas a quem tentava enganar?, indagou-se. Só havia uma escolha para ele. Devia guardar seu segredo para si.
A recepcionista lhe estendeu o recibo e o pedaço de papel onde estava anotada a data e o horário da próxima consulta de Ekhatherina.
Christopher murmurou um agradecimento e virou-se para Mary Hellen. Prendeu a respiração ao encarar os olhos límpidos e tão verdes.
E ficou imaginando como conseguiria não revelar nada acerca do que se passava em seu peito.

CAPÍTULO X

— Olá, Bob — Mary Hellen cumprimentou ao entrar no estábulo.
O homem reservado fez um meneio em silencioso cum­primento e continuou a tarefa de espalhar feno fresco na baia de Blaze.
Bob realizava muito bem seu trabalho, sem dar-se a conversas. Na verdade, sem dizer uma única palavra qua­se nunca. Bob Davis era alguém que não gostava de falar, isso estava claro. Era esse o motivo de Mary Hellen sentir-se segura em ir até a cocheira para divagar.
—        Importa-se se eu ajudá-lo a escovar os cavalos hoje, Bob?
—        Sem problemas — murmurou, fitando-a de soslaio. A baia de Pepper estava com cheiro doce de feno fresco.
Mary Hellen cumprimentou o animal e passou a palma da mão pela extensão de seu pescoço. A escova era um tanto pesada, mas ela logo habituou-se, e começou a pas­sá-la pelo lombo de Pepper.
As duas semanas desde que ela e Christopher se bei­jaram no parque foram as mais esplendorosas de sua vida. Mas sabia em seu coração que o clima de flerte entre os dois nada significava.
Christopher dissera-lhe, quando Mary Hellen sugeriu que encontrasse uma companheira, que não tinha interesse em manter um relacionamento. E, mesmo que ti­vesse, Mary Hellen não ficaria ali por muito tempo.
De fato, recebera a notícia de que havia uma posição disponível na Eslováquia. Necessitavam de sua presença já, mas segurariam a vaga para ela durante quinze dias.
Mary Hellen fora para o estábulo a fim de planejar a melhor maneira de contar a Christopher.
Mais uma semana ali com ele e Ekhatherina deveria bastar. Em seguida, voaria para a Eslováquia com tempo livre para encontrar um lugar para morar antes de co­meçar no novo emprego.
A cada dia que passava, Christopher parecia mais e mais confortável em seu novo papel de pai de Ekhatherina. E a criança, muito feliz em seu novo lar na América do Norte.
Em pouquíssimo tempo, nenhum dos dois precisaria de sua presença, e essa fora toda idéia desde o princípio.
Então o flerte entre ela e Christopher precisava ser aproveitado antes que acabasse. Podia ser apenas tem­porário, mas decerto era divertido!
Mary Hellen não sentira jamais uma alegria tão pura como nos momentos em que esteve nos braços de Christopher.
Pepper relinchou suavemente, parecendo sentir que Mary Hellen sorria.
Entretanto, uma nuvem pequenina e negra pareceu formar-se sobre ela quando pensou na perspectiva de di­zer a Christopher que um trabalho a aguardava. Com certeza ficaria contente e aceitaria a novidade com...
Bob tossiu.
—        Eu, bem...
Surpresa pela óbvia intenção de Bob em conversar com ela, Mary Hellen olhou em sua direção, a mão pousada no lombo de Pepper.
—        Estive pensando em lhe dizer... acho que nunca vi Christopher tão alegre. Ele costumava ficar metido naquele escritório de doze a catorze horas por dia. Agora, vai fazer compras, piqueniques no parque... Estou achando ótimo. Mary Hellen arregalou os olhos. Nunca ouvira tantas frases assim de Bob.
—        Ele está feliz — Mary Hellen concordou. — Ekhatherína mudou sua vida.
Bob pigarreou.
—        Caso não se incomode com meu comentário, Mary Hellen, acho que a pequena, Ekhatherina não é o único motive por trás do bom humor dele.
Mary Hellen enrubesceu, embaraçada. Bob dava a enten­der que ela era o motivo da mudança em Christopher. Mary Hellen sentiu vontade de mudar de assunto. Mas Bob pre­cisava saber a verdade. Ela não poderia permanecer ali.
Porque?, a pergunta ecoou em seu cérebro. Porém, Mary Hellen afugentou-a, assim como nas outras vezes em que a questão surgiu. Deixou de lado a escova e deu alguns passos para mais perto de Bob.
—        Olhe eu não ficarei aqui. Tenho um emprego me esperando na Eslováquia. Partirei em breve. Apenas vim para fazer com que a transição de Ekhatherina corresse com mais tranquilidade.
Bob parou de mexer com o feno e a encarou pela pri­meira vez
—        Christopher me falou isso. Mas é que... bem, pareceu-me que... as coisas haviam mudado.
O clima divertido que ela e Christopher vinham par­tilhando podia ser inocente na cabeça deles, mas era óbvio que o comportamento fora notado por Bob e alterara a percepção dele quanto à situação.
Como Mary Hellen nada respondeu, Bob disse:
—        Não queria ser intrometido, e decerto não devia estar me metendo, mas está sendo bom para Christopher ter uma mulher em seu caminho. Temo que ele possa não ter coragem de lhe falar isso. Por essa razão eu estou dizendo.
Mary Hellen sorriu. Sim, aquele homem estava sendo um tanto indiscreto, mas não o culpava por sua preocupação para com Christopher. Era óbvio que sua intenção era boa.
Além do mais, a observação de Bob de que uma com­panhia feminina para Christopher lhe fazia bem apenas solidificava a idéia de que o papai de Ekhatherina pre­cisava achar sua alma gêmea.
Mary Hellen pensara nisso desde o princípio. Era ver­dade que Christopher não gostara muito da sugestão quando fora trazida à tona, mas isso não a tornava menos interessante e correta.
A mente de Mary Hellen parecia girar. Talvez... apenas talvez... tivesse coragem de mencionar isso de novo antes de deixar aquela casa para sempre.
Você também não parece infeliz aqui. — Bob esboçou um raro sorriso, que iluminou seu rosto enrugado.
Está certíssimo em dizer isso.
Bob parecia estar esperando que Mary Hellen elabo­rasse algo. Como nada falou, ele prosseguiu:
—        Então por que precisa ir embora? Justo quando você e Christopher parecem estar se dando tão bem...
A última sentença continha mais insinuações do que Mary Hellen gostaria de admitir que notara. Mais uma vez sentiu-se embaraçada. Ela e Christopher vinham brincando um com o outro, divertindo-se com a atração física que nutriam um pelo outro.
Contudo, isso nada significava. Não poderia significar.
Era apenas diversão, um entretenimento. Só isso. Ain­da assim, como explicar a Bob? Parecia pessoal demais, muito íntimo. Por outro lado, Mary Hellen sentia que Bob merecia saber o que se passava.
Desse modo, abriu o portão da baia, passou e fechou-a atrás de si, dirigindo-se à baia aberta onde Bob estava ao lado do cavalo. Precisava fazê-lo compreender, de uma vez por todas, qual era a realidade dos fatos.
—        Não posso ficar aqui. — Sua voz soou frágil bem no momento em que quis que parecesse forte e firme.
Mary Hellen decifrou algo mais também em sua en­tonação. Contudo, não sabia o que era. Bob achou graça.
—        Parece tão insegura...
Era isso! E o fato de Bob ter sido capaz de reconhecer a indecisão quando ela mesma não fora, a fez enrubescer de novo.
  Diga-me, Mary Hellen, por que não pode ficar?
  Bem, eu... — gaguejou. — Tenho um emprego na Eslováquia.
Bob afastou a idéia com um breve gesto com a mão larga e cheia de calos.
—        Empregos há muitos. Você pode trabalhar em qual­quer lugar.
O fato de Bob ter desprezado sua única boa e sólida desculpa deixou-a mais aborrecida do que podia suportar. O medo começou a tomar conta de seus sentidos, e Mary hellen entrou em pânico.
  Não posso ficar aqui, Bob. Não posso! — E então saiu correndo do estábulo.
  Bem, está quase pronto.
Ouvir Christopher resgatou Mary Hellen de seu estado contemplativo. Estava sentada na varanda dos fundos, apreciando os sons agradáveis da noite. Usava camisola de cetim e robe combinando, e fora para lá na tentativa de relaxar um pouco.
Tinha muitos problemas com os quais lidar. O modo como fugira da cocheira e das perguntas de Bob na véspera obrigaram-na a encarar todas as implicações asso­ciadas àquele ato intempestivo.
Precisava contar a Christopher sobre o trabalho que con­seguira e pôr fim ao clima de provocação e flerte entre eles.
Mas não queria interromper as brincadeiras. Christopher fazia com que ela se sentisse tão bela, tão feliz, tão viva!
A varanda parecera o lugar perfeito para lidar com tantas questões perturbadoras. Uma coisa era certa: des­de que chegara aos Estados Unidos tornara-se mestra em fugir de ansiedade e problemas.
Suspirou e sorriu na escuridão.
  O que está quase acabado, Christopher? Ele sentou-se.
  Nosso casamento.
O clima agradável da noite pareceu tornar-se gélido de repente,
  Os papéis da anulação chegaram? — Ela sentou-se bem aprumada, colocando os pés descalços no chão.
  Sim. — Christopher ergueu o grande envelope para que Mary Hellen visse. — Precisamos apenas ler e as­sinar os documentos, e então meu advogado cuidará de tudo o mais.
  Nossa!
Mary Hellen não entendia o que estava sentindo. Era como se o enlace tivesse sido real.
Porém, tudo acontecera para que ele pudesse tirar Ekhatherina de Kyreznóvia apenas isso. Mesmo assim, era como se mais uma peça do quebra-cabeça estivesse sendo colocada no lugar. As outras pertenciam ao emprego dela. E a necessidade de Christopher e Ekhatherina de sua permanência ali diminuíam a cada dia.
Em breve, nada restaria para manté-la naquela pro­priedade. Sem saber o que dizer, murmurou:
—        Foi tudo muito rápido.
—        De modo geral, o sistema legal coloca empecilhos em tudo. No entanto, neste caso, permitiu que tudo cor­resse com rapidez, por incrível que pareça.
Christopher olhou para o escuro e acrescentou, com ironia:
  Que sorte a minha!
  O que quer dizer? Era isso que você desejava. O que nós queríamos. — Mary Hellen percebeu, apesar da penumbra, que Christopher sorria.
  Claro... — Ele, então, sorriu com mais intensidade. — Estava apenas provocando você.
A voz dele tornara-se deliciosamente suave, e Mary Hellen sentiu o sangue se aquecendo. Devia controlar-se. Precisavam discutir um assunto importante. O trabalho que a levaria para longe, e também os papéis da anulação.
Mary Hellen passou os dedos para cima e para baixo no pescoço.
  Bem, o que faremos agora, Christopher?
  Nada. Além de assinarmos na última linha destes formulários. Já que a anulação é incontestável e não hou­ve contato sexual...
O ar pareceu tenso.
—        Beijos não contam.
Ela tentou achar graça diante do comentário provo­cante. Christopher tentava tornar a situação mais leve, muito embora a tensão reinasse entre eles. Mary Hellen pressionou a palma contra a barriga, na altura do estô­mago, e respirou fundo.
  Você está bem, Mary Hellen?
  Lógico.
Após um momento, Christopher levantou-se.
—        Vamos para meu escritório terminar logo com isso.
Minutos mais tarde, inclinada sobre a escrivaninha, Mary Hellen pressionou com força a ponta da caneta contra o documento oficial para evitar que a mão tre­messe. A assinatura não ficou tão nítida quanto gostaria, mas era seu nome legal, de qualquer maneira.
A caneta parecia voar de página a página enquanto Christopher assinava os papéis que declaravam que o breve casamento deles não mais existia. Como se nunca tivesse acontecido.
  Pronto! — Christopher colocou a esferográfica sobre o tampo e endireitou a coluna, suspirando.
  Então, não sou mais a sra. Christopher Kimball.
  E engraçado, mas nunca cheguei a pensar em você como sendo.
  E por que deveria?
Mas, mesmo ao sorrir, fingindo descaso, Mary Hellen sentia como se uma faca entrasse em seu coração.
—        Mary Hellen Ritter... A melhor babá do mundo. É como sempre me lembrarei de você.
Como as palavras a magoavam! Dilaceravam sua alma. Mas por quê?, Mary Hellen tentava imaginar. Por que se sentia ferida com o que ele dizia?
O comentário nem deveria afetá-la. Afinal, desde o princípio soubera que o jogo que vinham levando era apenas um flerte.
Tinha consciência de que Christopher não estava in­teressado em um relacionamento estável. Tampouco ela estava. Divertiram-se ao se provocar, ambos sabendo que em breve aquilo chegaria ao fim.
Desse modo, por que experimentava a tortura terrível apenas em escutá-lo verbalizar o que ela sempre soubera ser verdade?
"Porque você o ama!"
"Não!" A negativa silenciosa foi firme. Não podia ser. Não permitiria que fosse.
Segundos que pareceram horas se passaram. Mary Hellen precisava conversar sobre algum outro assunto, exceto o que o casamento havia ou não sido ou qual o significado da anulação.
Também não queria falar de como ele se lembraria de sua estada na Filadélfia.
Necessitava com urgência afastar qualquer idéia de seu afeto por Christopher. Tratava-se apenas de volúpia, algo que vinha conseguindo manter sob controle.
O que sentia não era amor. Amar Christopher não era uma possibilidade.
O caos em seu interior quase a deixava maluca. Lutou por encontrar algo para dizer.
—        Eu queria lhe contar... queria que você soubesse...
Christopher virou-se para fitá-la, e Mary Hellen constatou naquele instante que não havia homem mais belo na face da terra. Por que o destino dera-lhe olhos tão maravilhosos?
—        Consegui um emprego, Christopher! Na Eslováquia.
Ele franziu a testa, e estava prestes a responder quan­do um grito pesaroso veio do quarto do bebê, alertando-os de que Ekhatherina acordara.
Christopher pediu licença a Mary Hellen para ir ao encontro da filha.
Mary Hellen reuniu os documentos e ajeitou-os em uma pilha perfeita. Então, colocou-os de volta no grande envelope. E experimentou uma desolação devastadora que encheu seus olhos de lágrimas.
Não choraria. Não poderia fazer isso! Era uma mulher adulta, amadurecida. Envolvera-se naquele esquema todo conhecendo as regras. Não poderia esperar que elas mu­dassem a seu bel-prazer.
—        Não quero que as regras mudem — sussurrou.
Mas mesmo enquanto falava, sabia que mentia.
Bem, decidiu, teria de continuar vivendo com essa men­tira. Christopher nunca descobriria o que lhe despertara. Afinal, não pensava em nela daquele jeito pessoal, pro­fundo e íntimo.
Flertará, dissera palavras doces, provocara-a, beijara-a. No entanto, fora mera diversão. Ambos sabiam disso.
E os comentários proferidos por Christopher minutos atrás eram uma prova disso.
—        "A melhor babá do mundo" — Mary Hellen repetiu.
Parecia óbvio que seu afeto por ela não ia além disso.
Mary Hellen preocupava-se muito com a impossibili­dade de continuar escondendo de Christopher o que lhe ia no coração no decorrer dos dias que viriam.
Foi quando ouviu-o cantando com incrível suavidade para a filha. Sorriu, a despeito das emoções nebulosas que a envolviam.
Christopher amava Ekhatherina do fundo da alma. E a garotinha passara a adorar o novo papai também,
A babá eletrônica instalada na cozinha transmitia os sons do dormitório da menina, que parecia repetir uma palavra vezes e vezes.
Ainda pensativa, Mary Hellen foi para a cozinha e abriu uma porta do armário, de onde tirou uma xícara plástica de Ekhatherina. Dirigiu-se à geladeira e pegou a garrafa com suco de maçã.
Christopher surgiu atrás dela, com Ekhatherina nos braços, no instante em que Mary Hellen fechava a porta do refrigerador,
Sinto muito, Mary Hellen, mas não sei o que Ekha­therina está pedindo. Imaginei que já havia aprendido bastante de seu idioma, mas isso é novo para mim.
Bebe — Ekhatherina balbuciou, olhando com ex­pressão de súplica para Mary Hellen. — Bebe.
Aqui, querida. — Mary Hellen ofereceu a xícara com suco para a menina. — Ela quer beber.
Mary Hellen, então, arregalou os olhos. Pegara o suco sem ter consciência do que ouvia através da babá eletrônica.
—        Ela quer uma bebida! — Mary Hellen disse, estupefata.
Mesmo assim, Christopher não pareceu compreender a relevância daquilo.
—        Em nosso idioma, Christopher! Apenas não pronun­ciou muito bem.
Christopher foi contagiado pela excitação dela.
—        Minha menininha está aprendendo nossa língua!
Ekhatherina riu, o cansaço deixando o belo rostinho. Mary Hellen creu que a criança não devia compreender o motivo da alegria do pai, mas parecia satisfeita em juntar-se a animação reinante.
—        Isso pede uma comemoração! — Christopher declarou.
Mary Hellen foi direto para o armário.
—        Sim, precisamos de um brinde. Suco de maçã para todos?
—        Suco de maçã será tão bom para mim quanto cham­panhe, agora.
Brindaram, e Christopher propôs:
A Ekhatherina!
A Ekhatherina! — Mary Hellen repetiu, antes de tomar um gole. — Nossa princesa progredirá no aprendizado a uma velocidade assustadora. Não haverá como detê-la.
Christopher voltou o olhar embevecido para a filha.
—        Isso é fantástico, querida. Logo o papai será capaz de compreender tudo o que você disser. E vai me entender também. Não é o máximo? — Virara-se para Mary Hellen ao fazer a pergunta.
Ela assentiu, mas em seu peito constatou que a última peça daquele complicado quebra-cabeça, a razão primeira para justificar sua permanência naquela casa, acabara de ser colocada no lugar.
Os dois já não precisavam mais dela.
Deu alguns passos na direção da varanda. Ouvia o som de grilos e sapos.
Não exagerara quando falara a Christopher que Ekhatherina teria um progresso impressionante. A capacidade de aprendizado das crianças era fabuloso. Como esponjas secas, sugavam tudo, absorvendo qualquer informação que lhe era apresentada. A pequena Ekhatherina não era diferente.
Em semanas, Mary Hellen sabia que o bebê de Christopher estaria pronunciando verbos e substantivos, e em seguida aprendendo a formular sentenças simples. Dessa etapa, a comunicação entre pai e filha seria ilimitada.
Mary Hellen também compreendia que, quando partisse, eles ficariam bem. Porém, ao pensar em si mesma, ficava imaginando quanto tempo levaria para tirar de seu coração a saudade daquele homem especial e de sua filha preciosa.
Um movimento a obrigou a erguer o olhar. Christopher estava em pé, com as mãos postas no batente da porta. A luz atrás dele deixava-lhe o semblante na escuridão, mas enfatizava a largura dos ombros e os contornos do corpo esguio.
Mary Hellen maravilhou-se com o fato de a mera visão fazer sua pulsação acelerar.
—        Bem, após três histórias e uma troca de fraldas, Ekhatherina resolveu se acalmar.
Mary Hellen pôde apenas sorrir, desejando que sua desolação e tristeza não estivessem evidentes. As sensa­ções eram tolas, mas bani-las era impossível.
O fato de Christopher ter colocado Ekhatherina na cama sem sua ajuda era mais uma evidência de que a necessidade que tinha dela ali desaparecia como por en­canto. O que a deixava desolada.
—        Acho que precisamos conversar.
Mary Hellen assentiu, sabendo que, embora a varanda estivesse às escuras, a luz que vinha do interior da re­sidência iluminava seu rosto o bastante para que Chris­topher pudesse ver sua resposta silenciosa. Não confiava na voz para falar naquele momento.
Ele aproximou-se, mas parou antes de chegar perto de­mais. Mary Hellen ficou aliviada por Christopher não acender a lâmpada. Era melhor discutirem o assunto na penumbra.
Christopher cruzou os braços e apoiou-se na parede.
—        Há quanto tempo sabe do emprego?
Mary Hellen sentiu vontade de adiar a conversa. Mas não poderia.
—        Faz pouco. Apenas alguns dias.
O silêncio dele pareceu mostrar sua desaprovação.
  Você sabia que eu estava procurando trabalho, Christopher. Esse era o plano desde o princípio.
  Eu sei.
A última coisa que Mary Hellen queria era uma dis­cussão. De fato, estava quase desabando em lágrimas. Se a raiva dele aflorasse ou Mary Hellen ficasse muito aborrecida, poderia acabar revelando mais do que devia acerca dos próprios sentimentos.
—        Apenas fico imaginando o motivo de você não ter me contado de imediato.
"Porque eu não queria estragar toda a diversão que ex­perimentávamos. Porque eu gostava do modo como você me tratava. Apreciava o jeito como me fitava. E me beijava..."
Podia apenas pensar em tudo isso, mas não verbalizar.
Christopher focou a visão em algum lugar ao longe do quintal.
Alguns instantes se passaram, e a agonia de Mary Hellen apenas aumentava. O tempo urgia. Ela precisava lidar com o assunto e habituar-se àquilo, para poder seguir adiante.
Cometera o erro de apaixonar-se por Christopher, mas superaria isso.
Apesar de saber que um dia acabaria esquecendo os sentimentos íntimos que nutria por ele, nunca deixaria de se importar com Christopher.
Ele lhe falara antes que não estava interessado em se casar, porém, mesmo assim Mary Hellen achava que seria a melhor solução.
Pensou na visita de Ekhatherina à pediatra e em como Christopher ficou perturbado. Após sua partida, ele não teria ninguém em quem se apoiar.
Ficara muito bravo quando Mary Hellen opinou a res­peito de vir a ter uma esposa de verdade. Entretanto, depois que ela partisse, não teria outra oportunidade de lhe dizer que Christopher precisava abrir-se para o amor.
Decidiu, portanto, correr o risco de avivar-lhe a ira e ficou imaginando qual seria a melhor maneira de abordar o tema, dando o conselho indesejado.
—        Christopher, você sabe que partirei em breve. Mas há algo que gostaria de lhe dizer. Depois que eu me for, não terei oportunidade de expressar o que sinto.
Christopher fitava-a com atenção.
—        Desde que eu vim para cá, sinto que nos torna­mos... amigos.
Christopher ficou tenso.
  Por isso, não posso deixar de lhe falar, de novo, que... você precisa de alguém.
  Mary Hellen...
Mas ela recusou-se a ser interrompida.
—        Espere. Por favor, deixe-me terminar. Eu me importo com seu bem-estar e o de Ekhatherina. Sei que já conver­samos sobre isso, mas ficarei preocupada com vocês dois quando viajar. Quero só que me diga que no mínimo pensará em namorar. E tentará imaginar-se com uma moça que pos­sa... ajudá-lo. Alguém que seja uma mãe para Ekhatherina.
Mary Hellen não queria que entrar em muitos deta­lhes. E muito menos imaginar a alegria que aquela outra mulher encontraria nos braços dele. O simples fato de saber que o homem que amava não estaria só bastaria. Teria de bastar.
—        Prometa-me que, assim que eu virar as costas, você tentará encontrar uma esposa.
Christopher suspirou. Os braços penderam nas laterais do corpo, e ele deu alguns passos na direção de Mary Hellen.
—        Oh, Mary Hellen... — Sentou-se perto dela. — Fico tão feliz em saber que você se importa comigo e com Ekhatherina!
Ela não sabia o que dizer. Preparara-se para a fúria de Christopher, e foi surpreendida pela doçura de seu semblante.
—        Você tem razão. — Christopher sorriu. — Nós nos tornamos amigos. Sei que lhe devo muito. Quero que me compreenda. Gostaria que me deixasse explicar...
Christopher, num rompante, tomou a mão de Mary Hellen entre as suas.
—        Eu gostaria de esclarecer por que nunca poderei lhe prometer o que está me pedindo.

CAPÍTULO XI

Grazielle era tão jovem... A voz de Christopher chegava até Mary Hellen, acariciando-a, mas havia tensão nas palavras. Uma combinação desconcertante.
—        Tinha apenas dezenove anos. Eu a amava de ver­dade. — Olhava por sobre o ombro de Mary Hellen, pa­recendo consultar a noite, enquanto falava. — Mas nós éramos novos demais para nos casarmos.
Mary Hellen estava sentada, silenciosa e pensativa. O relacionamento de Christopher com a moça a que se referia devia ter sido sério, se chegaram a cogitar casamento.
—        Grazielle formara-se no colegial no ano anterior. Tinha um emprego em período integral. Achava-se pronta para começar a nova fase de sua existência, a qual era, em seu modo de ver, composta apenas por matrimônio, filhos, um lar...
Houve agitação nos movimentos de Christopher, quan­do coçou o queixo com expressão ausente.
—        E eu? Estava entrando no terceiro ano de faculdade. Mal completara vinte anos. De modo algum estava pronto para um compromisso e a responsabilidade de ter esposa e família. Queria dedicar-me por completo aos estudos.
Christopher suspirou.
—        Ela falava em casamento com frequência. Eu tentava ser paciente e explicar meus objetivos de uma ma­neira que não a magoasse, mas minha namorada parecia não compreender.
Mary Hellen, então, sentiu o olhar intenso em seu rosto, mas duvidava que até mesmo Christopher a estivesse en­xergando. Encontrava-se em outro lugar, em outra época.
—        Talvez compreendesse, mas estivesse determinada a alcançar as próprias objetivas. Não sei dizer.
Christopher inclinou-se adiante e descansou os cotovelos nos joelhos. A musculatura do pescoço relaxou um pouco, e a cabeça pendeu para baixo. Olhou para as mãos entre­laçadas ou para o chão, Mary Hellen não sabia ao certo.
Respirou fundo, num suspiro que disse-lhe que algo estava prestes a acontecer. Algo grande e ruim. E, fosse o que fosse, Christopher tinha medo de falar.
Mary Hellen prendeu a respiração e ficou aguardando que a recordação, sem dúvida dolorosa, lhe fosse revelada.
—        Grazielle foi até mim certo dia e pressionou-me a marcar uma data. De novo. Repeti que o momento não era apropriado. Não queria magoá-la, nunca quis. Mas minha namorada não parava de pressionar. De repente, explodiu em gritos, afirmando que queria casar-se de ime­diato, bem no início de meu último ano na faculdade. Falei-lhe que a idéia era ridícula e que nós teríamos de esperar. Grazielle agia como se nem mesmo me ouvisse. Dizia que iria trabalhar, e eu continuaria indo às aulas. Nossas vidas seriam perfeitas, dizia.
Passou a mão pelas faces e voltou a suspirar.
—        Foi aí que perdi a paciência. Estava tão frustrado! "Você não entende o que estou tentando fazer?", perguntei-lhe. Estava lutando muito para conseguir um diploma. Isso nada significava para ela? Disse-lhe tantas coisas que nem mesmo me lembro de tudo agora. Mas recordo-me de ter terminado o relacionamento. Jurei que não me casaria com ela nem com nenhuma outra garota du­rante muito tempo. Anos até. Christopher sentiu um arrepio.
—        Grazielle me xingou, praguejou... Então correu, so­luçando tão alto que as pessoas começaram a aparecer nas janelas para ver o que acontecia.
Christopher ficou frio, e Mary Hellen teve de obrigar-se a não tocá-lo. Ainda não. Alguma coisa lhe dizia que não era o momento certo. Ele estava por demais envolvido nos acontecimentos amargos.
—        Ela saiu de carro em disparada... — Christopher engoliu em seco. — ...e causou um acidente com mais quatro veículos na rodovia.
Mary Hellen temeu que seu murmúrio de susto o per­turbasse. No entanto, Christopher mergulhara muito fun­do nas recordações para até mesmo ter consciência de como fora sua reação.
  Quando cheguei ao hospital, era tarde demais.
  Oh, Christopher...
Dessa vez, o impulso foi muito poderoso para ser con­tido. Mary Hellen pousou a mão em seu braço.
  Ela morreu?
  Não.
Mary Hellen franziu a testa, confusa. Sendo assim, o que quisera dizer com...
—        Mas nosso bebê sim. E eu nem mesmo sabia que ia ser pai.
Christopher pareceu isolar-se do presente ainda mais. E Mary Hellen soube que nada que dissesse o confortaria naquele momento.
Soltou-o e levou os dedos de encontro ao peito, na altura do coração, que se contraía com a dor de Christopher.
—        Fui tão egoísta, Mary Hellen... Estava tão concen­trado no que eu queria, no que pretendia ter, que recusei-me a escutá-la. Nem ouvi o que tentou revelar quando implorou que nos casássemos. Grazielle estava grávida de um filho meu, e apavorada. E simplesmente a dispensei! Agitado, Christopher alisou os cabelos.
—        Minha rudeza, minha teimosia... mas mais do que tudo meu egocentrismo causaram a morte de meu filho.
Christopher respirava em golfadas entrecortadas, e Mary Hellen teve certeza de que começaria a chorar. Contudo, manteve-se firme.
Ela queria muito poder abraçá-lo, mas, como não sabia como Christopher reagiria, nada fez.
—        Depois disso, jurei que não causaria infelicidade a nenhuma outra mulher. Não deixaria ninguém apaixonar-se por mim. Não permitiria que uma garota chegasse perto o bastante para se machucar. Concluí que não sou adequado como companheiro. Isso tornou-se muito claro para mim, na ocasião. Assim como está muitíssimo evidente agora.
Naquele instante, Mary Hellen compreendeu. Quando conheceu Christopher, suspeitou de que ele não queria envolver-se porque fora magoado por alguma moça. Des­cobrira a verdade. Fora ele quem causara a mágoa.
A idéia de que negava-se o direito à felicidade, ao amor e companheirismo, partilha e ternura que um grande amor lhe traria desconcertou Mary Hellen.
Com lágrimas nos olhos e a alma em frangalhos, mer­gulhou mais fundo na melancolia dele. Lamentava a per­da da criança de cuja existência Christopher soube ape­nas quando já era tarde demais.
Mary Hellen fez uma constatação surpreendente. Christopher tomara decisões bastante duras e inflexíveis porque sentia culpa acerca de eventos ocorridos. Acon­tecimentos sobre os quais teve pouco ou nenhum controle.
—        Christopher...
Ele nada respondeu, não mexeu um músculo sequer, e Mary Hellen decidiu que ainda estava perdido nas lem­branças terríveis.
A urgência em resgatá-lo era imensa. Christopher pre­cisava libertar-se de tanto sofrimento.
Pousou a mão no ombro dele e apertou com suavidade.
—        Christopher, olhe para mim.
Ele virou-se em sua direção, e o que Mary Hellen viu quase a fez cair em pranto. O olhar dele perdera a inten­sidade, percebia isso até mesmo na penumbra da varanda.
Christopher parecia letárgico, como se tivesse corrido por uma distância muito longa e sentisse enorme exaustão.
  Você não pode se culpar, Christopher. Não sabia que Grazielle esperava um bebê. Desconhecia a existência da criança quando ela saiu em disparada.
  Eu posso me culpar, sim. E me culpo. Se não tivesse sido tão dominador, Grazielle teria se sentido mais con­fortável para me contar o que estava acontecendo. Rejeitei-a, e ela correu às cegas e envolveu-se em um aci­dente que tirou a vida de nosso bebê. Sempre me sentirei responsável, sempre!
Mary Hellen conseguia compreendê-lo, por mais ilógico que fosse. Afatou-o, tentando em vão dar-lhe algum conforto.
—        Sabe, Christopher, é costume nos dizerem para dei­xarmos o passado para trás. Devemos aprender com nos­sos erros e tentar não repeti-los. Esquecer o que passou e seguir adiante. No entanto, acredito que a vida lhe propôs uma situação que não pode ser colocada de lado. Você terá de conviver com isso.
Ela segurou-lhe o pulso, e Christopher pareceu muito aliviado em constatar que Mary Hellen não tentaria con­vencê-lo a deixar de sentir-se mal por tudo o que ocorrera tanto tempo atrás.
—        Também acredito, Christopher, que a pessoa que você é resulta do que experimentou um dia. Acredito que essa seja a grande verdade para todos nós. Você, eu, cada ser humano.
Mary Hellen suavizou a entonação ao acrescentar:
—        Se não tivesse rejeitado Grazielle, se não tivesse desprezado sua primeira oportunidade de constituir uma família, então... quem sabe? Poderia nunca ter sentido vontade de responder ao apelo desesperado de Ekhatherina por um pai e um lar, quando assistiu àquele pro­grama de televisão. E vou lhe dizer algo mais. Pode se sentir muito mal em relação a seu comportamento egoísta com sua namorada, Christopher, mas o fato de ter abrigado aquela menina, quando ela não tinha nada nem nenhum lugar para onde ir, foi o ato mais desprendido
que já tive oportunidade de presenciar.
Mary Hellen notou uma luz nova brilhando naquelas pupilas. Era algo tênue, um raio de esperança, mas exis­tia. Pela primeira vez, pareceu que Christopher ponde­rava a situação dolorosa sob um ângulo diferente.
—        Não vou lhe dizer para tentar esquecer-se de tudo, mas digo-lhe que é hora de perdoar. E sabe quem? Você mesmo.
A cada sentença, Christopher aprumava-se um pouco mais. Considerava tudo o que Mary Hellen lhe dizia com intensa concentração.
—        Não podemos mudar o passado, isso é uma reali­dade. Mas é nosso dever fazer o melhor para tornar o futuro gratificante para nós e aqueles a quem amamos.
Mary Hellen parou de acarinhá-lo e deslizou para a beirada da cadeira. Queria estar o mais próximo possível dele quando expressasse suas palavras finais:
—        Comecei a me importar muito com você e Ekhatherina. E pode até ficar bravo com o que estou prestes a falar, mas o que me contou não me faz mudar de opinião. Ainda sinto que necessita de uma companheira em seu caminho.
Antes que ele pudesse responder, apressou-se:
—        Quando recordo do pavor que experimentou com Ekhatherina, como na ocasião em que o bebê caiu do berço... ou as preocupações na sala da médica... e até mesmo nos mo­mentos maravilhosos, como esta noite, quando sua filha falou a primeira palavra em nosso idioma, fico triste em imaginar que, assim que eu for embora daqui, você não terá ninguém com quem dividir coisas assim.
Pousou a palma no joelho dele.
—        Tem de encontrar alguém com quem partilhar sua existência.
Christopher a encarou, e Mary Hellen preparou-se para sua ira.
Porém, ela não veio.
Os segundos pareciam transcorrer em câmera lenta. Era impossível saber o que ia pela mente de Christopher. Seria indecisão o que pairava nas íris escuras?
Com vagar, ele umedeceu os lábios com a língua. E os maxilares ficaram rígidos, no que parecia ser uma resolução súbita.
Foi quando Christopher afirmou:
—        Não quero qualquer pessoa. Eu quero você!
"Por que diabos não mordi a língua, Santo Deus? Por que deixei as frasess saírem de minha boca?!"
Porque Christopher não teve o menor controle sobre o que falou. Sua fraqueza fez suas emoções se revelarem. E temia ter assustado Mary Hellen.
Apavorada, Mary Hellen saiu correndo da varanda.
Primeiro, ficara apenas estupefata. E aí, com muita rapidez fabulosa, o medo dominou todos os ângulos de seu lindo semblante.
A pele pareceu muito pálida, apesar da escuridão, os olhos, arregalados, com o que Christopher poderia escrever como pavor. E saíra em disparada, come o diabo foge da cruz.
Se tivesse mantido a boca fechada, não estaria sentado ali, só e na escuridão.
Ao explicar a morte de seu filho a Mary Hellen, Christopher foi açoitado por emoções tão intensas que achou que fosse perder-se para sempre nes horrores das recordações.
Mas Mary Hellen consegui-a resgatá-lo com seu jeito doce, confortando-o até deixá-lo livre e sozinho na varanda.
O que ela dissera fazia sentido. Algumas situações não podem ser esquecidas. Jamais deixaria de recordar o primeiro filho. E algumas atitudes e comportamentos, não importava o quão pesarosos fossem, não podiam ser postos de lado, mas suportados.
Fora correta também ao proclamar que as pesseas eram moldadas por suas experiências. Orgulhava-se do fato de Mary Hellen considerar a adotão de Ekhatherina um ato desprendido. Não havia pensado no assunto sob esse prisma antes. Talvez tudo o que ocorrera em sua vida tivesse aju­dado Christopher a se tornar um homem melhor.
Sim, conforme Mary Hellea afirmara, cada pessoa é resultado direto do que experimentou um dia.
Tudo o que ouvira foi uma chave importante para des­travar não apenas os mistérios de quem ele era e do que sofrera, como também as dores dela.
O medo que tomou-a apenas momentos atrás o con­fundiu. O que gerava tanto pinico?
Christopher vira aquele comportamento antes, lembrou-se, quando beijou-a pela primeira vez no corredor, tantas semanas atrás.
Beijara-a, e Mary Hellen cerrera para o quarto, ame­drontada. E no dia seguinte ameaçara partir. Apenas seu apelo, dizendo que necessitava dela, mudara sua in­tenção de ir para longe, de imediato.
Christopher chegara a achar que Mary Hellen tinha medo de intimidade... que sua inexperiência com homens tornava-a arredia. Porém, logo aprendeu que não era isso. Após o incidente em que ela saíra enrolada em uma toalha no meio de um banho de imersão, começaram a flertar.
Fora um comportamento leve e frívolo, e Mary Hellen parecera divertir-se tanto quanto ele.
Talvez tivesse conseguido relaxar porque o que ocor­rera entre os dois não passava de brincadeira. Contanto que o flerte permanecesse em um nível superficial, Mary Hellen sentia-se segura.
Seria isso? Poderia ser que, contanto que a atração tivesse algum apoio em um clima divertido, ela quisesse jogar?
O relacionamento deles não iria a lugar algum. Ao menos era o que o jogo trivial deixara implícito. Fora isso o que os dois, erradamente, concluíram. O que ha­viam verbalizado.
A atração era externa, e poderia ser deixada para trás com facilidade, e assim seria quando fosse hora de Mary Hellen partir. Era por isso que ela se mostrava segura em participar.
Contudo, por que estava tão determinada a deixá-los?
O que sentiam um pelo outro, a eletricidade poderosa, era tão forte que qualquer um perceberia. E Mary Hellen, decerto, não era pouco perceptiva. Era carinhosa e se preocupava muito com os que estavam a seu redor. Todo aquele contexto parecia formar uma grande contradição.
Frustrado, Christopher suspirou. Sentia como se lhe faltassem muitas informações a respeito de quem Mary Hellen era, o que lhe ia no íntimo e por quê. Mas como obter um quadro coerente?
Uma pessoa era moldada pelo passado...
O conceito voltou a povoar sua mente. Poderia o temor de Mary Hellen ter sido provocado por algo que acontecera?
Ela fora abandonada pela mãe. Passara de um lar adotivo para outro. Resolvera dar aulas porque as crian­ças necessitavam dela. Deixara os Estados Unidos... por quê?, Christopher indagou-se.
Fora para outros países após ter se formado na faculdade e não retornara até concordar em ajudá-lo com Ekhatherina.
Será que toda a América do Norte representava um lugar onde não se sentia querida?
Duas palavras pareciam fundamentais: querer e precisar.
Mary Hellen não se sentiu querida quando criança. E todas as vezes em que Christopher dera a entender atra­vés de palavras ou atitudes físicas que a queria, Mary Hellen entrara em pânico e dera-lhe as costas.
Ensinava inglês a crianças estrangeiras que necessi­tavam de sua auxílio. E Christopher convencera-a a aju­dá-lo, persuadira-a a ficar quando Mary Hellen ameaçara ir apenas explicando o quanto precisava dela.
Sim, Mary Hellen tinha de ser necessária. Mas temia ser querida.
A revelação fez Christopher apoiar o queixo entre o indicador e o polegar.
O fato de ser amada tornava-a vulnerável às emoções dos outros, e, portanto, à mágoa. E como devia ter sido magoada durante a infância e adolescência!
Levantou-se e caminhou até a porta que conduzia à entrada. Ali ficou em pé, imóvel.
Naquele instante, Christopher sentiu que compreen­dia um pouco melhor Mary Hellen e os motivos que a impulsionavam.
Tinha a sensação de que uma tarefa de uma vida toda estava a sua frente: fazer Mary Hellen compreender a si mesma, bem como ao medo avassalador que a domi­nava... antes que entrasse em um avião e voasse para bem longe dele, para sempre.

CAPÍTULO XII

Mary Hellen estava de partida. Com uma estranha mistura de tristeza, pesar e pânico, enfiou uma blusa de algodão na mala e a fechou. Colocou a mochila sobre a cama e sentou-se no chão. Num gesto automático, estendeu a mão e ajeitou as pregas da colcha.
Não fazia idéia do que ocorrera com ela no decorrer das últimas vinte e quatro horas. Sabia apenas que pre­cisava ir embora. E logo na noite anterior, na varanda, depois que Christopher lhe faiou que a queria, Mary Hellen sentiu-se dominada por um pavor tão intenso que viu-se sem escapatória.
Amava Christopher. Sabia disso, e ouvi-lo dizer o que dissera devia tê-la feito delirar de alegria. Porém, isso não acontecera.
Naquele instante, sentira-se de novo uma garotinha, uma criança indefesa sentada em um quarto escuro, te­mendo que o homem feio aparecesse, e sabendo que viria a qualquer momento.
A emoção fora mais intensa do que era capaz de su­portar. Por isso fizera a única coisa que pôde; correu. Voou para se salvar.
Fora um ato instintivo, um reflexo natural que não poderia ter contido, mesmo que quisesse.
Depois, ficou rolando na cama durante horas, sentindo que algo terrível estava prestes a ocorrer. E despertou naquela manhã com a mesma sensação de ameaça fa­zendo seu estômago doer.
Por isso, decidiu que tinha de partir. Era preciso. Seu emprego de professora na Eslováquia era a solução perfeita.
Christopher aceitara a notícia naquela manhã muito bem, considerando o modo como Mary Hellen o deixou, de modo tão abrupto, na véspera. Não lhe fez perguntas, apenas afirmou que faria o possível para agendar o vôo transatlântico para o dia seguinte.
Mary Hellen, com sucesso, evitara-o durante o restante do dia. E reunira seus pertences antecipadamente para a viagem que faria em seguida.
Sentiria falta da pequena Ekhatherina. Sorriu de leve ao imaginar o rosto inocente da criança, seus lindos ca­belos agora brilhantes, fruto da dieta saudável que seu papai lhe providenciava.
Lembrar-se-ia sempre de seus sorrisos e gargalhadas. Ekhatherina era uma linda garotinha, e Mary Hellen sabia que desabrocharia como uma flor adorável sob os cuidados amorosos de Christopher.
Christopher... Sentiria falta dele também. Era um ho­mem que...
Uma apreensão gélida tomou-a, tirando-lhe o fôlego. O coração disparou.
— Pare! — ordenou-se, pressionando a palma contra a base do pescoço e inalando com dificuldade, conforme tentava controlar o pavor.
Tinha de deixar de pensar em Christopher. Foi até a porta e abriu-a.
O luar era filtrado pela janela do banheiro, iluminando o corredor. Mary Hellen parou do lado de fora do quarto de Ekhatherina. Ouviu a menina brincando lá dentro.
Passara bastante tempo com ela, despedindo-se, mas ne­cessitava de algo para ocupar a mente e ajudá-la a su­perar a ansiedade.
Assim que girou a maçaneta, teve de sorrir diante da cena. Ekhatherina e Christopher brincavam no carpete. A menina tentava equilibrar um bloco no alto da cabeça do pai. Christopher, sentado no chão, permanecia imóvel, e Ekhatherina ria, muito alegre, cada vez que o bloco colorido caía.
—        Olá... — Mary Hellen falou com suavidade.
A garotinha disse:
—        Olá — sem a menor hesitação, e Mary Hellen mais uma vez lembrou-se da imensa habilidade em aprender que as crianças costumavam ter.
Christopher colocou Ekhatherina no colo.
—        Você não é a garotinha mais inteligente de todo o universo? — perguntou e deu uma mordida alegre na orelha da filha. — Entre, Mary Hellen.
Ela obedeceu, meio insegura.
—        Apenas pensei em passar um pouco de tempo com Ekhatherina... antes de minha partida.
Christopher fez um gesto de aquiescência, porém, nada falou.
Ekhatherina escapou do abraço do pai e foi andando cambaleante para junto de Mary Hellen, agarrando-lhe a mão. Então, a garotinha conduziu-a para onde Chris­topher estava sentado e fez com que Mary Hellen se acomodasse ao lado do pai. Estendeu um bloco de ma­deira, deixando claro que gostaria que participasse do jogo de equilibrar um bloco sobre a cabeça.
Mary Hellen mordeu o lábio inferior e ficou olhando para o bloco. Fora até ali para ficar com Ekhatherina, mas não relaxaria, estando Christopher presente. Devia ter previsto que ele estaria ali.
Procurou fortalecer a resolução e ergueu o queixo... e encontrou o olhar mais intenso que já vira.
Havia mensagens importantes nas íris castanhas de Christopher, que Mary Hellen não estava preparada para decifrar. Não naquele instante. Não com todo caos rei­nante em seu peito.
A frustração de Ekhatherina tornou-se visível. Mary Hellen desviou o olhar para a menina e colocou o bloco, com delicadeza, sobre os cabelos de Christopher.
A menina bateu palmas e gargalhou. Mary Hellen e Christopher não conseguiram conter o sorriso diante da empolgação da criança. Era preciso tão pouco para Ekha­therina ficar feliz...
Mary Hellen sentiu uma tremenda satisfação por a menina estar tendo a chance de um futuro cheio de brilho.
De soslaio, notou um movimento e, por instinto, es­tendeu a mão para impedir a queda do bloco.
Christopher reagiu com o mesmo reflexo.
O brinquedo caiu na mão de Mary Hellen, e a de Chris­topher segurou a dela.
Seus olhares se encontraram. Embora ele não mexesse um músculo sequer, Mary Hellen sentia-se acariciada.
Aborrecida com aqueles adultos tediosos, Ekhatherina tirou o bloco da mão de Mary Hellen e foi andando até sua caixa de brinquedos.
Bem devagar, Mary Hellen desvencilhou os dedos e fitou o carpete.
Mas Christopher segurou-lhe o queixo e aplicou pres­são suficiente para que ela o encarasse.
— Por favor, Mary Hellen... olhe para mim. Converse comigo. Confie em mim.
O medo mostrava suas garras. O ar pareceu fugir dos pulmões dela, contudo, sabia que não passava de fruto de sua imaginação.
—        Mary Hellen?
A súplica pareceu apenas aumentar sua ansiedade.
Christopher era tão bom e gentil... Tornara-se seu ami­go no decorrer das últimas semanas. Por que então lhe provocava aquela sensação ruim?
  Estou apavorada.
  Eu sei, querida. Percebi que está. E gostaria que você me falasse a respeito.
De novo Mary Hellen experimentou a impressão de estar em um vácuo.
—        Estou... apenas... apavorada.
Evidente que Christopher entendeu que Mary Hellen não conseguiria dizer mais.
—        Contanto que nosso relacionamento permaneça em um nível superficial, Mary Hellen, com aquela falsa idéia de flerte, você fica bem. No entanto, no instante em que torna-se um pouco mais sério... assim que íamos ficar mais unidos, seu semblante mostrou puro terror.
Ela assentiu.
—        É verdade. É o que estou sentindo agora. Christopher demonstravam compaixão. Aos poucos
Mary Hellen foi encontrando forças para afugentar o medo. Tremia ao dizer:
Sinto-me como uma criança pequenina. Esperando e observando. Tudo é tão estranho! Tão... infantil. Mesmo assim, é mais real do que qualquer outra sensação que já experimentei. É como saber que algo acontecerá e... e... e virá me apanhar.
Querida... — A gentileza dele bastou para pôr por terra suas defesas. — Talvez você não tema algo que vá acontecer, mas tenha medo que alguém não venha.
Mary Hellen franziu o cenho, confusa. O que Chris­topher queria dizer?
—        Durante todos os anos em que esteve em lares adotivos — começou a explicar, tomando-lhe a mão —, você esperou por alguém que a adotasse, que a amasse. E a quisesse.
O pânico de Mary Hellen voltou a crescer. A visão ficou nublada pelas lágrimas. Foi bombardeada pela ur­gência avassaladora de escapar dele... Não dele, mas das recordações, da verdade que Christopher lhe colocava diante dos olhos.
A palma quente curvou-se, protetora, ao redor de seus dedos, e agia como um lembrete à sanidade, à necessidade de ser forte.
As frases avivavam seus temores sim, mas Mary Hel­len, desesperada, queria superar e banir para sempre o pavor. De alguma maneira, sabia que Christopher pode­ria ajudá-la.
—        E como essa pessoa não veio, minha querida, você se fechou e decidiu proteger-se da dor e mágoa, da recusa em ser amada. Da recusa em ser querida.
Mary Hellen franziu a testa ainda mais. Será que o terror que sentia fazia tanto tempo podia ser reduzido a algo simples assim?
Christopher tinha razão quanto ao flerte. Ela gostara muito, talvez porque esperasse que a brincadeira pudesse ser esquecida com facilidade. Mas logo percebeu que se equivocara.
Apaixonara-se por Christopher, e de uma maneira tão intensa que não havia escapatória. Foi quando o terror galgou alturas impressionantes. Insuportáveis.
—        Quero você, Mary Hellen. Eu te amo. E, mesmo que corra de mim, o que sinto por você não mudará.
Mary Hellen ficou surpresa porque por fora aparentava tanta calma quando seu interior estava a um passo da histeria.
"O monstro está chegando", uma vozinha lhe falava. "Ele, vai pegar você. Corra. Fuja!"
Mas o amor que sentia por Christopher era um feixe de luz no negro recanto de sua memória. Era quase como se ele tivesse aberto aquela porta imaginária que a ga­rotinha perto dela temia. E o espaço vazio e tão escuro que imaginava existir ali dentro e que tanto a aterrori­zava não estivesse vazio.
Christopher, que se encontrava ao batente, preenchia o espaço, e estendida a mão para ela, cheio de afeto.
—        Você me fez ver que devia aprender com os erros que cometi, Mary Hellen, e não temê-los para sempre. Antes que entrasse em minha vida, eu era uma pessoa pela metade. Pressinto que devia sentir-se assim tam­bém. Juntos, poderemos nos completar.
Como Mary Hellen queria sentir-se completa e ama­da... Adoraria poder conhecer o amor, dar amor. Oh, como precisava se sentir querida!
O nó na garganta de Mary Hellen não lhe permitia falar, mas estava determinada a dizer a Christopher o que lhe ia no peito.
—        Christopher... também amo você.
Ele puxou-a para o colo, e Mary Hellen mergulhou o rosto contra o pescoço largo. O cheiro dele era tão bom! Cheiro de segurança e afeto.
—        Graças a Deus, querida! — Christopher sussurrou contra os cabelos perfumados.
Mary Hellen empurrou-o de leve para fitá-lo, de olhos arregalados.
—        Mas e quanto àquela passagem de avião para amanhã?
Christopher fez um muxoxo e sorriu, maroto.
  Ora, não há passagem alguma! Eu estava determi­nado a lhe revelar que a amava e a fazer com que você decidisse ficar aqui comigo e com Ekhatherina. Jurara a mim mesmo... Enfim, até rasguei os papéis da anulação do casamento.
  Você... destruiu os papéis?!
Ele fez que sim.
Mary Hellen nem podia acreditar. Ainda era a esposa de Christopher!
A gargalhada dele pairou alegre pelo ambiente.
Christopher decidira adotar Ekhatherina e até mesmo casara-se com Mary Hellen para que seus planos se con­cretizassem. Sim, era um homem que sabia traçar e al­cançar seus objetivos.
Sorrindo para ele, Mary Hellen imprimiu o som mais rouco e sensual que pôde à voz:
—        Determinação é uma de suas maiores virtudes, que­rido. — E beijou-o na boca.
Um beijo que provava, sem deixar dúvida alguma, o que ela sentia.
—        Fiz uma promessa de que, se você me amasse, iria fazê-la muito feliz. E pode acreditar quando digo que lhe proporcionarei uma cerimônia matrimonial à altura. Uma da qual jamais esquecerá, meu amor. Dentre todas as pessoas do mundo, você é quem mais merece!
Sabendo que Ekhatherina divertia-se, tranquila, a seu lado, Mary Hellen deixou-se envolver pelos braços fortes de seu amado.
Beijaram-se com ardor e ternura, e Mary Hellen com­preendeu, de uma vez por todas, que aquele era o começo de um futuro maravilhoso para todos.

EPÍLOGO

— Eu, Christopher, aceito você, Mary Hellen... Embevecida, Mary Hellen contemplava o belo rosto do homem que amava.
—        ...como minha esposa...
A renda branca de seu vestido de noiva fazia-a sentir-se como uma princesa. O amor brilhando nos olhos de Chris­topher tornava-a uma rainha.
—        ...para proteger, deste dia em diante...
Mary Hellen olhou para a pequena Ekhatherína, em pé entre os dois, fantástica em seu vestidinho de cetim rosa.
Entretanto, o que mais encantava Mary Hellen era a alegria intensa que notava em Christopher. Sentia-se per­dida naquele olhar. Ou melhor: fora nele que se encontrara.
Antes que se desse conta, o reverendo pediu que ela repetisse os votos de fidelidade, as palavras que iriam uni-la a Christopher por toda a eternidade.
Seu coração transbordava de contentamento, mas Mary Hellen não teve dificuldade em falar, alto e com muita clareza.
Após trocarem as alianças, o pastor disse:
—        Pelo poder que me foi concedido, eu os declaro ma­rido e mulher. Pode beijar a noiva, sr. Kimball.
O beijo foi firme, quente e repleto de promessas de amor.
Bob Davis. ajudante de Christopher, e sua esposa, Joan, parabenizaram os recém-casados. Haviam concor­dado com indizível satisfação em serem os padrinhos.
Christopher, então, abaixou-se e pegou Ekhatherina no colo.
— Ei, minha linda! — Beijou o rostinho da filha.
A menina sorriu para a nova mãe e abraçou o pai. Em seguida, foi colocada no chão.
Assim, de mãos dadas, a pequena família desceu do altar da igreja.
Enfim, seriam felizes para sempre.


DONNA CLAYTON orgulha-se de ter re­cebido a Holt Medallion, prêmio honorário ao ta­lento literário, por seu romance Wife for a While. Seu trabalho também aparece na listagem de li­vros mais vendidos, o que lhe dá muita alegria e satisfação.
A leitura tornou-se sua opção favorita para en­frentar tardes chuvosas. Nos dias de tempo bom, aprecia longas caminhadas. Outro passatempo constante são as viagens. Apaixonou-se pela Eu­ropa durante o primeiro passeio ao exterior re­centemente e planeja retornar em breve. Oh, e Donna ainda coleciona livros de culinária, mas conforme sua carreira de escritora progride, pas­sa a usá-los cada vez menos. Donna adora comunicar-se com suas leitoras. Por favor, escreva aos cuidados de Silhouette Books, 300 East 42nd Street, New York, NY 10017.